domingo, 30 de dezembro de 2007

Um Rostropovich de presente (Feliz Natal)

Como não poderia deixar de fazer, trago um pequeno presente aos escassos leitores e visitantes desse blog em vista do Natal, já em atraso, e do novo ano que se inicia.

A beleza é boa. É evidente. Portanto não é necessário dar justificativa a essa sentença. Mas o que é bom, enquanto característica de adjetivação é porque reflete o Bem, que é sujeito. O Bem cujo nascimento entre os homens é celebrado todo 25 de dezembro, todo santo ano. Logo, apreciarmos o que é belo e bom é sempre razão para nos maravilharmos, nos conscientizando do Bem refletido.
Enfim, o que vos trago é uma apresentação de Mstislav Rostropovich, que refletia bondade por meio de sua bela música. Falecido nesse superado ano de 2007 aparece no vídeo executando o Prelúdio da Suíte No. 1 para Violoncelo de Bach.

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Por
Gustavo V. de Andrade

É triste, mas é verdade.

A mediocridade da unanimidade é geral. As pessoas na falta do que pensar, ou talvez na simples falta de personalidade, repetem àqueles que parecem pensar, ou ter personalidade. E assim se manifesta o hodierno pensamento politicamente-correto, boca a boca, mente a mente, claro, sempre unânimes em apontar dedos simplesmente porque alguém no começo da fila desse enorme telefone sem-fio público disse para ser assim.

Está se levantando uma ditadura intelectual não declarada, aos olhos de todos. Para ser moralista é preciso ser falso, para ser contra o aborto é preciso ser obscurantista, não votar em um determinado candidato é impedir a “democracia”, afinal de contas se ele quer trabalhar, deixa o homem trabalhar, oras! O incrível é ver que as pessoas mais simples e humildes são as que parecem mais imunes a tal epidemia, mas não estão a salvos, pois esse tipo de peste é de se alastrar rápido. Essa doença é acadêmica. É de magistrados, bacharéis e doutores. É de jornalistas, não de jornaleiros.

Uma das verdades declaradas desses enfermos, e provavelmente a mais esdrúxula, é de que não existe verdade. Valha-me Santo Deus! Tudo é então mentira? O que fiz em minha vida até hoje sem saber disso? É verdade então que existe mentira? E como se faz pra saber que algo é mentira? É... De fato a vida é bem mais fácil sem a verdade, sendo assim é verdade o que eu quero, toda mentira é verdade. Mas me ensinaram que a verdade não existe e como fica a mentira verdadeira?

Cada um constrói sua verdade. Que bonito isso! E eu que pensava mal das pessoas que se acham donas da verdade. Quem diria, o comunismo chegou até na metafísica. Verdade pra todo mundo! Viva!

E eu que aprendi que o céu era azul... Só pode ser opressão das elites! Mas se é mentira que o céu é azul é verdade que o céu não é azul? Isso é meio confuso, mas se me ensinaram assim é porque deve ser verdade, né? Ou será que é mentira?

Há quem até date a verdade, pessoas letradas, claro. A verdade é uma construção da história, o que se achava verdade, hoje não mais se acha. E eu pensava que se algo não era verdade é porque era mentira. Era tudo verdade, só que ficou fora de moda, a verdade agora é outra.

Será que é mentira que eu existo? Que loucura! Se eu não existo estou gastando meu tempo à toa escrevendo esse texto, que ninguém vai ler, nesse blog que não sei nem ao certo se é verdade que existe...


Por
Gustavo V. de Andrade

domingo, 16 de dezembro de 2007

Confiteor

Behold me at Thy feet again, O Lord!
Humbly to kneel, -- how can I dare to pray,
Or thank Thee for this grace Thou dost accord?
I can but wonder that Thou dost not slay.
My weight of infamy doth press me down,
The load of guilt that I can bear no more;
Prostrate in bitter shame before Thy frown,
I can but murmur low: Confiteor!

Black is the record of the rebel soul
That openly contemns Thy law divine,
Proclaiming earthly joy its only goal
Throughout this life. But blacker still is mine;
For unto me the Tree of Life was shown,
And I have lived amid the fruits it bore;
The Treasure of Thy temple I have known
Thankless, indifferent, -- Confiteor!

In deepest shame bowed down before Thy Face,
The wretch to whom Thy mercy still allows
The gift of life and many a greater grace,
Recalls the treachery, the broken vows.
My presence doth Thy temple but defile,--
How shall the traitor knock upon Thy door?
Basely, unworthy, vilest of the vile;
Confiteor, O Lord, -- Confiteor!

B. O'B. C.



Source: The Ave Maria, August 26, 1905.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

A força de vontade

Por
Jaime Balmes
(Excerto de O Critério)


A FORÇA DA VONTADE

Quase sempre há no homem uma grande soma de forças que ele deixa inativas. O conhecer-se acertadamente é um maravilhoso segredo para fazer muitas e grandes coisas. Ficamos impressionados diante de certos trabalhos realizados pela necessidade. Em situações de necessidade, o homem transforma-se e muda, por assim dizer, de natureza. A inteligência se engrandece, adquire uma penetração, uma lucidez e uma precisão maravilhosas; o coração se dilata, nada assombra a sua audácia; até o corpo adquire mais vigor. E por quê? Criaram-se por ventura novas faculdades no homem? Não, mas as faculdades que dormiam foram despertadas. Onde tudo era repouso, tudo se tornou movimento, tudo convergiu para um fim determinado. Aguilhoada pelo perigo, a vontade se desenvolve em sua irresistível potência; ordena imperiosamente a todas as faculdades que concorram para a ação comum; presta-lhe sua energia e sua decisão. Espanta-se o homem ao sentir-se inteiramente mudado; o que apenas ousaria imaginar, o impossível de ontem, torna-se o fato realizado do presente.

O que praticamos nas circunstâncias extremas e sob o império da necessidade nos deixa ver o que podemos no curso ordinário da vida. Para obter, é mister querer; mas querer com vontade decidida, resoluta, inconcussa; com vontade que caminha para o fim sem desanimar com os obstáculos ou fadigas. Mas às vezes parece-nos ter vontade, quando só temos veleidades. Quereríamos, mas não queremos. Quereríamos, se não fora preciso romper com nossa preguiça, afrontar certos perigos, vencer certas dificuldades. Escasseando de energia a nossa vontade, molemente desenvolveremos nossas faculdades e cairemos desfalecidos a meio do caminho.


A FIRMEZA DA VONTADE

Querer com firmeza! Esta firmeza assegura o sucesso nas empresas difíceis; por meio dela nos dominamos a nós mesmos, condição indispensável para dominar as coisas. Há dois homens em cada homem: um, inteligente, ativo, elevado, nobre em seus pensamentos e em seus desejos, submetido às leis da razão, cheio de ousadia e generosidade; outro inteligente, sem arrojo, sem expediente, não se atrevendo a levantar nem a cabeça nem o coração acima do pó da terra, envolvido inteiramente nos instintos e nos interesses materiais. O último é um ser de sensações e de gozos; nem lembrança de ontem, nem previsão de amanhã; para ele, a hora presente, o gozo presente é que constituem a felicidade; tudo o mais é nada. Em contrapartida, o primeiro instrui-se com as lições do passado, sabe ler no futuro, há para ele outros interesses que os de momento; não circunscreve em tão estreito círculo o que se chama a vida, a aspiração da alma imortal. Sabe que o homem é uma criatura formada à imagem de Deus; levanta o pensamento e o coração para o céu; conhece a sua dignidade; compenetra-se da nobreza da sua origem e de seus destinos, paira acima da região dos sentidos. Que direi ainda? Ao gozo prefere o dever.

Nenhum progresso sólido e permanente é possível se não favorecemos a parte nobre da alma, sujeitando-lhe o homem inferior. O que se domina a si mesmo, facilmente domina as circunstâncias. Uma vontade firme e perseverante, além de outras qualidades, liga ou subjuga as vontades mais fracas, e lhes impõe naturalmente e sem esforço a sua superioridade.

***

A obstinação é um defeito gravíssimo, pois que fecha nossos ouvidos aos conselhos; porque, a despeito de toda a consideração de prudência ou de justiça, nos encadeia a nossos sentimentos, pensamentos e resoluções: planta vivaz cuja raiz é o orgulho. Entretanto, os perigos da obstinação são talvez menores que os da inconstância: se a obstinação nos cega concentrando nossas faculdades em um só ponto, às vezes em um erro, a inconstância enfraquece estas faculdades, ora deixando-as ociosas, ora aplicando-as, com mobilidade sem repouso, a mil diversos objetos. A inconstância torna-nos incapazes de terminar qualquer empresa; colhe o fruto antes da maturidade, recua diante dos mais insignificantes obstáculos: uma leve fadiga, um leve perigo a amedronta; deixa-nos à mercê de todas as paixões, de todo o sucesso, de todo o homem que possa ter interesse em nos dominar; finalmente fecha os ouvidos aos conselhos da justiça, da razão e do dever.

Quereis adquirir vontade perseverante e firme e premunir-vos contra a inconstância? Formai convicções firmes, traçai-vos um sistema de vida, e nada confieis ao acaso do que lho puderdes subtrair. Os sucessos, as circunstâncias, a vossa previdência de curto alcance não raro vos obrigarão a modificar os planos que houverdes concebido; não importa: não deve esse ser motivo para de novo os não formar; isto não vos autoriza a vos entregardes cegamente ao curso das coisas e a caminhar à ventura. Pois não nos foi dada a razão como guia e apoio?

Traçar de antemão uma linha de atuação e só agir depois de maduras reflexões, é proceder com notável superioridade sobre os que se conduzem ao acaso. O homem que se guiar por estes princípios, ouso afirmá-lo, levará incontestável vantagem sobre os que se portem de outro modo. Se estes são seus auxiliares, naturalmente os porá debaixo de suas ordens, e se verá constituído seu chefe sem que eles o pensem nem ele próprio o pretenda; se são seus adversários ou inimigos, os desbaratará, ainda que com menos recursos.

Consciência reta e tranqüila, vontade firme, plano bem concebido, eis os meios para levar a bom termo as empresas difíceis. Isto pede-nos alguns sacrifícios, concordo; supõe trabalho interior, enérgico e perseverante, pois que é mister começar por se vencer a si próprio; mas, assim na ordem intelectual e moral, como na física, nas coisas do tempo, como nas da eternidade, só merece e obtém a coroa o que sabe na luta afrontar as fadigas e os perigos.


Fonte: www.quadrante.com.br

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

A desocupação do ocupar

“Todo poder necessita de um inimigo e de uma ameaça, pois sua mais segura justificação é a proteção que ele oferece contra tal perigo”.

A citação pela qual começo o texto foi proferida pelo historiador francês Jerôme Baschet, em entrevista no ano passado (2006) ao Instituto Humanitas Unisinos. O extrato é em verdade uma análise do posicionamento dos EE.UU. perante os islamitas, tratando da necessidade que surgiu à nação americana de direcionar suas atenções a um novo “bode-expiatório” após o fim da Guerra Fria, e da aniquilação de sua antagonista, a URSS. Acredito, no entanto, que é um diagnóstico de uso universal e que pode aplicar-se mesmo ao canhestro modus operandi dos grupos políticos universitários da atualidade.

Sem sombra de dúvidas uma das maiores causas da atual situação do panorama político brasileiro, como um todo, foi a existência e extinção da ditadura militar. Lula deve sua presidência à ditadura. A suposta identidade direitista dos militares parece ter vacinado o Brasil, ou pelo menos a classe “pensante” do Brasil, contra todas as posições políticas que de alguma forma se alinhem ou se aproximem ao pensamento de direita, seja uma defesa da moral ou da economia liberal. Enquanto figura política, Lula nasceu nos movimentos sindicalistas que ousavam levantar suas vozes contra a ditadura, seu discurso era inegavelmente mais inflamado do que hoje, nunca deixando de ser, no entanto, um esquerdista, conseguiu ascender ao poder. Ele não caiu nas graças do povo por pregar o socialismo, o povo brasileiro é ainda não muito amigado desse tipo de discurso. Os que nele votaram foi por identificação com sua imagem e não com suas idéias, apesar de que as idéias dele serviram para comprar a simpatia dos “pensantes” e dos ditos formadores de opinião.

Assim como Dom Quixote via nos moinhos, gigantes, Lula diz ver na farinha de seu mesmo saco, a elite predadora. Assim como nosso presidente precisou que o Brasil fosse vacinado contra o “direitismo”, os movimentos estudantis parecem apenas existir com auxílio dessa mesmíssima premissa. Em defesa da democracia invadem prédios públicos, como se 1964 estivesse novamente começando. Nas suas ações ecoa o grito de “Abaixo a ditadura!”.

Ter permanecido durante tanto tempo como centro de tantas articulações políticas, fez o meio acadêmico cansar-se dessa lengalenga. Não percebem os jovens em suas camisas de Che Guevara o ridículo que há muito se tornou essa sua inclinação revolucionária? Dizem lutar contra a opressão e as posturas antidemocráticas, no entanto, oprimido sinto-me eu representado por esses grupos que em nada me relaciono.

Os grupos estudantis vivem por conta dos fantasmas ditatoriais, enxotam os fantasmas para cima dos que deles discordam, aqueles que por eles são “insultados” de reacionários e conservadores, e mesmo fascistas. São eles, entretanto, que parecem esforçar-se em manter vivos esses fantasmas. Há nessa lógica um pequeno problema, todos os que restam do lado de fora desses movimentos parecem não possuir a mesma “perspicácia”, que os nobres politizados e esclarecidos dos D.A.s da vida, em enxergar esses fantasmas. Essas alucinações frutos de algum tipo de iniciação, em verdade, fazem parte deles mesmos, são eles os infestos, os possuídos pelos fantasmas ditatoriais. “Abaixo a ditadura!”, faz-se necessário que eles mesmos escutem seus gritos, pela voz de outros, dos “alienados”. Abaixo a ditadura!

Possuídos então, pelos assombros da ditadura, alguns jovens estudantes parecem ter visto na contestação ao REUNI a necessidade de ocupar a reitoria da Universidade Federal de Pernambuco. Com direito até a slogan de campanha: “Ocupe a reitoria dentro de você!”. Singelo, não é mesmo? Entre uma discussão de assembléia e outra, encontravam tempo ainda para oficinas de tapioca e artesanato, assistir filmes do Godard, feijoadas e a apoteótica festa da ocupação. Isso claro sempre visando combater o autoritarismo do reitor, que tardou, receoso que ficou, em dar aos estudantes o que eles esperavam: o uso da força na desocupação. Parece haver um desejo inato de sofrimento aos marxistas, de algo que possa ser identificado como opressão. É certo que o Paraíso para eles deve cumprir-se aqui na Terra, mas precisam desse pequeno martírio para se justificar. Estudantes que são da, ainda considerada, melhor universidade pernambucana, ocupando gratuitamente um espaço público, onde realizam abertamente festas, anunciadas em seu blog, precisam ser vitimizados para se identificarem com seu próprio discurso, para fazerem jus ao que pregam. Precisam dizer que são excluídos, nem que seja da reitoria, mas precisam ser excluídos.

E assim permanece a mobilização estudantil, relegada à inércia histórica, presa nos grilhões do status quo tupiniquim. Faço meu o clamor de muitos: menos política e mais estudo! Não desejo fazer aqui apologia ao REUNI, de forma alguma, reconheço as falhas lógicas da perpetração desse projeto, mas as respostas dadas parecem por demais desproporcionadas às causas. Pelos clamores democráticos do grupo representativo dos estudantes, foram interrompidas muitas das práticas necessárias ao bom funcionamento da Universidade, até mesmo bolsistas viram-se sem seu auxílio de custo mensal. Talvez enquanto ingeriam a feijoada os ocupantes, e se atormentavam os bolsistas, tudo o que desejavam os arquitetos dessa mobilização toda fosse realmente a melhoria dos cursos, disso não duvido, mas o princípio de que os fins, de alguma forma, justificam os meios foi antes deles utilizado por ditadores sanguinários. É... os estudantes fazem a Universidade, enquanto Hitler faz escola.

A principal bandeira levantada desse “auê” todo foi uma suposta falta de consulta em relação ao corpo discente na implementação do REUNI. É triste, entretanto, constatar que o próprio corpo discente, dotado de algum consentimento messiânico, usa do querer de alguns para fazer valer seus ideais em nome de todos. A política é um assunto extremamente instigante, a maneira infantil como é tratada, porém, nos meios acadêmicos, torna-a insuportável. Se o movimento estudantil se esforçasse em buscar novos meios de articulação garanto que a perspectiva de uma juventude sadiamente politizada seria outra, e nos livraríamos desse marasmo ditatorial que nos empurra a um sentimento apolítico. Por isso se não ocorre mudança interna no modo de agir dos movimentos estudantis, se a política é vista nessa única perspectiva, não temo em dizer que não a desejo. Diante dela posso apenas dizer: Menos política e mais estudo!

P.S: Democraticamente disponibilizo aqui o endereço eletrônico do blog da ocupação, para que não venham a contestar nenhum tipo de direito de resposta:
http://ocupaufpe.blogspot.com

Por

Gustavo V. de Andrade

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

O Romance da Pastora Linda

Por
António Feijó













A linda Pastora, guardando o seu gado,
Andava esquecida num alto montado.

E o Rei, que voltava, sombrio, da caça,
Com seus falcoeiros e galgos de raça,

Detem-se, pensando, de subito, ao vê-la,
Em ermo tão alto, que fôsse uma estrella.

— «Oh linda Pastora dos olhos castanhos,
Que passas a vida guardando rebanhos!

A tua belleza deslumbra os meus olhos,
Como uma tulípa no meio de abrolhos.

Teus labios parecem cerejas vermelhas,
E a pelle é mais fina que a lã das ovelhas.

Sobre o oiro das tranças, tuas faces tão puras
São duas papoilas em searas maduras.

Estrella ou Pastora, se queres ser minha,
Terás as riquezas que tem a Rainha!»

— «A flôr dos vallados é sempre modesta
E a humilde zagalla presume de honesta.»

— «Terás equipagens, palacios, castellos,
E joias a arderem nos fulvos cabellos;

Um throno de esmaltes em oiros massiços,
Lacaios, escravos, fidalgos submissos!...»

— «Ás vossas riquezas, perdidas nos montes,
Prefiro mirar-me no espelho das fontes;

As joias, que valem, se eu guardo o meu gado,
Com rubras papoilas a arder no toucado?...

De nada me servem fidalgos, escravos,
Pois tenho as abelhas e o mel dos meus favos.

Segui vosso rumo, que a tarde caminha;
Guardae as riquezas que são da Rainha».

— «Não rias, vaidosa, das minhas promessas,
Que a forca tem visto mais lindas cabeças...»

— «Talvez que mais lindas já visse pender,
Mas nunca tão firme nenhuma ha-de ver,

Que a Virgem Santissima, a Virgem clemente,
Ampara, sorrindo, quem morre innocente,

E os anjos, descendo do ceu a voar,
Á forca viriam minh'alma buscar!»

E a linda Pastora, que a ser ultrajada
A morte prefere,--vae ser enforcada!

Levaram-na, á força, das suas ovelhas,
Pendendo-lhe ás tranças papoilas vermelhas,

Com gritos de escarneo, no meio da turba...
Mas nada os seus olhos serenos perturba.

E toda inundada na luz que irradia,
Sorrindo, os estrados da forca subia...

Então, n'um relance, do azul transparente,
Surgindo mais alvas que a lua nascente,

Duas pombas que descem e voam a par,
Nos braços da forca vieram poisar...

E a linda Pastora dos olhos castanhos,
Tão longe da serra, cercada de estranhos,

Sem ter um gemido, sem ter um lamento,
Expira na forca... Mas n'esse momento,

No grande silencio que a morte causara,
Aos olhos de todos que attonitos viram
Tão grande prodigio, coragem tão rara,
Dos braços da forca--três pombas partiram!

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Lógica breve da mentira

O Iluminismo advoga o Realismo, o Racionalismo e o Antropocentrismo. O Realismo é a afirmação dos universais como Realidade Objetiva e insondável. O Racionalismo é a afirmação da razão subjetiva como Realidade subjetivadora da Realidade Objetiva, ou seja, é real o que está ao alcance do idear humano. O Antropocentrismo é a afirmação do sujeito humano como medida da Realidade Objetiva, ou seja, é real o que está ao alcance do ser humano.

O Iluminismo é irrealista porque nega a Realidade Objetiva do que é sondável. O Iluminismo é irracionalista porque ignora a objetividade do que é real e referenda a realidade do que é ideal. O Iluminismo, considerando a Realidade Objetiva como insondável e o homem como medida da Realidade Objetiva, ou é anti-humano, porque refuta a realidade sondável do homem, ou é louco, porque advoga as afirmativas cujos pressupostos, ao mesmo tempo, rechaça. Ou, simplesmente, o Iluminismo é mentira.

Por
Geraldo Vasconcelos

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Unser Liebe Fraue - Nossa Gentil Senhora

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Nossa gentil Senhora
De fresca fonte,
Aos pobres lansquenetes
Dai um sol quente!

Não nos deixeis congelar,
Sejamos acolhidos numa estalagem
Onde entremos com bolsas cheias
E ao sair as tenhamos vazias.

E os tambores,
Que troem, que troem, avante,
Lansquenetes avante!
Lansquenetes avante!

O tambor marca a marcha,
Ao vento estalam as bandeiras de seda.
É preciso entregar-se à sorte e à graça de Deus.
Para entrar em campanha.

O trigo amadurece nos campos,
A solha salta n'água corrente,
E o vento traz o rumor dos ducados,
Ele se levanta e monta em direção a Berg op Zoon.

Refrão

Nós comemos a poeira da estrada,
E nossa bolsa está oca.
O imperador devora os Flandres,
À sua saúde todos os dias!

Ele não pensa senão em regalar-se de suas conquistas,
Em dominar o mundo.
Em minha casa está meu amor,
Que chorará se eu morrer.

Refrão


*Lansquenetes, assim eram chamados certos mercenários alemães dos séculos XV a XVII. Em alemão são chamados Landsknecht (Land significa terra ou país, e Knecht, servidor).

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

A “Cantiga de Guarvaya” ou “Cantiga Ribeirinha”

Acorriam estrangeiros aos portos de Portugal, acolhia-os o Rei no intuito de aumentar a população, fazer fértil aquelas terras após os findos tempos das trevas bárbaras. Conhecido tal senhor, combatente dos mouros, ficou por Povoador. Dom Sancho I, o Povoador, segundo a subir no trono lusitano, quarto filho do monarca Afonso Henriques. Batizado fora de Martinho em honra ao santo do dia de seu nascimento, mas tendo seu irmão mais velho falecido recebeu alcunha um tanto mais monárquica, chamado ficou Sancho Afonso.

À infanta de Aragão e Catalunha, Dulce de Barcelona, teve por esposa, e com ela uma prole de onze filhos e filhas. Desses valem menção três de suas filhas, Dona Mafalda, Dona Sancha e Dona Teresa que se tornaram freiras, e por suas vidas fizeram-se beatas. O Rei não era, no entanto, tão santo, teve outros tantos filhos bastardos. Seis desses filhos ilegítimos teve com Dona Maria Pais Ribeiro, conhecida como a “Ribeirinha”.

O texto que agora apresento, escrito pelo poeta trovador Paio Soares de Taveirós, é dito ter por inspiração a Ribeirinha, e por muito foi considerado o texto literário mais antigo que se tem registro em língua portuguesa. Muitos dizem datar de 1189 ou 1198, mas parece já provar-se ter sido escrito apenas no início do século XIII, não sendo mais o mais antigo. Sendo d’antes ou depois, ter por tanto tempo sido, pois, o texto mais antigo de nossa língua-mãe, trago-o por sua importância histórica de hoje ou de outrora. Devido ao arcaísmo da escrita do chamado galego-português, trago também notas a desvendar o dito. Eis, por fim, a “Cantiga de Guarvaya” ou “Cantiga Ribeirinha”:


"No mundo non me sei parelha,

mentre me for' como me uay

ca ia moiro por uos e ay!

mha senhor branca e uermelha,

queredes que uos retraya

quando uos eu ui en saya!

Mao dia me leuantei,

que uos enton non ui fea!

E, mha senhor, des aquel di' ay!

me foi a mi muyn mal,

e uos, filha de don Paay

Moniz, e ben uus semelha

d' auer eu por uos guaruaya

pois eu, mha senhor, d' alfaya

nunca de uos ouue nem ei

ualia d' üa correa."

(por limitações técnicas é posto ü ao invés de u com til)


[VOCABULÁRIO: parelha = semelhante, igual; mentre = enquanto, entrementes; ca = pois, porque; moiro = morro; senhor = senhor(a); queredes = quereis; retraya = retrate, evoque; que uos enton non ui fea = que então vos vi linda (por litote); mi = mim; semelha = parece; guaruaya = manto escarlate próprio dos reis.]


Por

Gustavo V. de Andrade

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

A las 6 de la mañana

Um grito forte e resoluto cortava o ar soturno do México naqueles tristes anos de perseguição atroz: Viva Cristo Rey! Sem direito a julgamento fora condenado ao fuzil o Pe. José Augustín Pro. Sua face serena, sua expressão decisiva, seus olhos fixos no céu. A arma que carregava na algibeira era modesta, porém poderosa: um rosário. Palavras de devoção se elevavam de sua boca... "venha a nós o Vosso Reino e seja feita a Vossa vontade". Pareço ouvir daquele jesuíta as mesmas assertivas de Cyrano diante da proximidade da morte; “Não aqui! Sentado, não! Assim! Não me ampareis! Não quero! Venha! Quero esperá-la em pé, de rosário em punho!”. Morria Augustín Pro. Diante dele os algozes, os velhos algozes, os inúmeros algozes sempre prontos para perpetrar o assassínio contra os que testemunham a Fé verdadeira. O que era para ser uma demonstração de opróbrio público na espera que o mártir se desesperasse perante a morte, Augustín demonstra fortaleza diante do seu destino e caminha lentamente para o lugar da glória do martírio. Pede para rezar! Ajoelha-se e beija o crucifixo, estende os braços em cruz e diz: ”Dios mío, ten misericordia de ellos. Dios mío, bendícelos. Señor, tu sabes que soy inocente. Con todo mi corazón perdono a mis enemigos". Tiros secos e tristes, mais tiros. O corpo do mártir estende-se exangue no chão do México, do México de Nossa Senhora de Guadalupe. Antes de morrer porém, um grito forte, claro e resoluto cortara o céu soturno daqueles tristes anos de perseguição atroz: Viva Cristo Rey! O brado seria entoado por mais e mais homens; o governo de Elías Calles cortaria a língua dos futuros mártires para que eles não confessassem o amor a Nosso Senhor e a Nossa Mãe Guadalupana.

Foi assim que se iniciou no México uma epopéia de perseguição das mais intensas contra a Igreja, digna dos primeiros mártires da época dos césares, mas que fez a Fé daqueles católicos, quase sempre pessoas humildes, brilharem com intenso fulgor testemunhando a Religião verdadeira diante de Deus, dos homens e da história.

Se la Iglesia verdadeira

La mi vida me pidiera,

Yo diez mil le ofreciera

Por guardar la Fe entera!

Diez mil vidas yo las diera

Por la Iglesia e su bandera!


A conspiração que urdia na perseguição da Igreja se arrastava desde o século XIX, mas somente em 1926 que se culminaria em investidas mais acintosas. Sobe ao poder o maçom socialista Plutarco Calles e logo que pôde começou a executar um plano de ação tendente a destruir o catolicismo no México. No mesmo ano aprova a Reforma do Código Penal (lei Calles), expulsando os sacerdotes estrangeiros, penalizando com multas e prisões os que dêem ensino religioso ou estabeleçam escolas primárias, os que se vestiam como clérigo ou religioso, ou realizassem atos de culto fora dos templos. Em Guadalajara quem confessasse a Fé em Cristo Nosso Senhor perderia o emprego, e aconteceu de 389 funcionários perderem suas funções. As leis contra a Igreja foram em grande número... Logo mais, no dia 31 de julho de 1926 se suspendia o culto público na República do México. Eis as leis fraternas trazidas pela república... as leis da compreensão e da democracia. Se suspedia o culto público??!! Jamás! Calles não triunfará!!

Calles não triunfará! Logo se ouve às seis da manhã em Jalisco, em Guanajuata e Zatecas o grito dos camponeses, dos devotos e dos padres, das mulheres que rezavam os rosários, armas mais poderosas, e lutavam . Viva a coragem dos católicos que combatiam bravamente contra o laicismo infligido pelo assassino Calles que sempre dizia: só estamos impondo a lei. Mesmo sabendo da inferioridade numérica, eles lutavam; mesmo sabendo da inferioridade das armas, eles rezavam; mesmo sabendo da inexorabilidade da morte, eles cantavam:

El martes me fusilan

A las 6 de la mañana.

Por creer en Dios eterno

Y en la gran Guadalupana.

Me encontraron una estampa

De Jesús en el sombrero.

Por eso me sentenciaron

Porque yo soy un cristero.

Encanecidos combates singraram os solos mexicanos. Batalhas, demonstrações de Fé como a do jovem José Sanchez del Río de 13 anos que ao perceber que a morte cruenta se aproximava escreveu para sua mãezinha: “Minha mamãezinha. Fui apanhado e vão matar-me. Estou contente. A única coisa que me inquieta é que vais chorar. Não chores, nós nos encontraremos. José, morto por Cristo Rei”.

Es por eso me fusilan

El martes por la mañana

Mataran mi cuerpo débil

Pero nunca nunca mi alma


A história dos cristeros não é sabida por muitos. Não lembro de tê-la estudado nos cursinhos de história que fiz por aí. Poucos conhecem a história dos mexicanos que saiam de sombreiros e ponchos e retornavam milagrosamente de combates em que a superioridade do inimigo era atestada pelo número e pelas armas. Foi mais um capítulo nobre dos Atos dos Apóstolos, como já disseram, escrito nas terras americanas. Na terra de Nossa Senhora de Guadalupe. A cristiada, como ficara conhecido o levante, não se acabou no México. A luta dos cristeros é a mesma luta de todos os católicos em qualquer lugar do mundo e em qualquer tempo: render culto público a Deus! Apesar de render o ódio do mundo não devemos temer, pois Cristo disse: Se eles me perseguiram, perseguirão a vós também. E é uma grande honra ser odiado por quem odeia Nosso Senhor. Por isso, pueden matarme, pero no si acaba la creencia en Dios eterno. Nenhum crime ficará impune. Os sangues dos mártires clamam por vingança. Deus vingará, Deus fará justiça!

Meus inimigos voltam atrás,

tropeçam e somem à Tua presença,

pois defendeste minha causa e direito:

sentaste em Teu trono como justo juiz. (Sl, 9,4 e 5)

Dedico o texto a todos os meus amigos católicos, a todos meus verdadeiros amigos que rezam pelo triunfo da Santa Igreja, contra quem as nações se enraiveceram e os povos meditaram coisas vãs (Salmo 2,1). Viva Cristo Rey!


Por
Antônio Manuel da Silva Filho

O Estado Religioso


No campo das idéias a contradição é uma figura tenebrosa, uma enfermidade. Contradizer-se é, não raro, motivo suficiente para a ridicularização do pronunciante e funciona apenas para o seu descrédito. Antes de desejarmos não nos contradizermos com medo das opiniões alheias, o fazemos pelo bem da sustentação de nossas idéias. Exigimos de nós mesmos um encadeamento lógico das mesmas, pelo bem de nossa própria saúde mental.

Visando a não contradição nossos pensamentos acomodam-se em nossas cabeças, por vezes a grande custo, de modo que haja espaço para todos e que fiquem perfeitamente alojados. Mesmo as mais excêntricas das idéias não podem conflitar-se pelo bem de seu defensor, posto que é difícil respeitar às idéias de alguém que não respeita à própria consciência. É comum que a maturidade nos sirva para a coesão das idéias, a proximidade que elas passam a apresentar, tornam-nas polidas e espelho umas para as outras. Os pensamentos passam a ser tão complementares uns aos outros que ao se expor um, outros parecem visíveis pela dedução, ou mesmo pela intuição, e se seguem fluentemente. Há uma idéia, porém, que consegue revelar as outras com maior grandeza, parece refletir a própria essência de nossa formação intelectual, esta idéia é a que fazemos de Deus. Um velho halterofilista barbado ou o sol que traz a colheita. A Verdade ou uma mentira. Não é o caso de que todas as idéias se desprendam dessa, mas o fato é que a partir dela a exposição de ideologias parece bem mais clara.

As linhas doutrinárias de um partido político estabelecem determinados parâmetros ideológicos, que se aplicam sobre diferentes áreas. Embora no Brasil os partidos se misturem numa única e invariável malha putrefata de imoralidade, ainda permeia o idealismo de que os partidos carregam bandeiras representativas de seus objetivos. É no que tangencia a ideologia pessoal com a partidária que os políticos definem sua direção, escolhem qual “bandeira” erguerão. É dito então que dentro dos partidos se supõe linhas ideológicas gerais a serem seguidas, interdependentes, que se organizam no estatuto assim como as idéias em nossa mente. Assim como nossa consciência estabelece limites éticos e morais para as nossas ações, o partido estabelece normas e objetivos gerais, explícitos ou implícitos, a serem obedecidos por seus membros.

O deputado federal Luiz Bassuma (PT/BA), presidente da Frente Parlamentar Contra o Aborto, sofreu represálias do presidente do PT da Bahia, Marcelino Galo por defender idéias que seriam contrárias à posição do partido a respeito do tema aborto, mesmo que, como tenha respondido, Bassuma não tenha ferido nenhum ponto programático do PT. Vê-se no caso do deputado baiano que os partidos têm sim proposições morais determinadas e que invariavelmente se relacionam a um direcionamento da religiosidade, mesmo que se acredite ser esta inexistente na política atual. Assim como é a idéia que fazemos da divindade a que melhor reflete nossas opiniões sobre outros assuntos diversos, assim também podemos perceber qual a visão que determinados partidos revelam de Deus. No livro-debate “No que crêem os que não crêem”, o progressista cardeal Carlo Maria Martini questiona a seu interlocutor, Umberto Eco, de onde proviria a moral daqueles que não acreditam em Deus, posto que não via como poderia esta existir sem Ele. Eco prontamente respondeu explicando que a moral não depende da crença em Deus. O cardeal Martini estava errado (não pela primeira e nem pela última vez). A moral pode não prescindir da crença em Deus, mas está intrinsecamente relacionada à divindade e, portanto, a religiosidade do indivíduo. Do materialismo supõe-se o ateísmo, visto que tem como valor apenas o que é sensível; neste sentido se expõe a confusão gerada pelo deputado baiano, pois mesmo que o PT tenha, aos olhos da mídia, tentado se “endireitar” continua a ser um partido formado nas bases do comunismo.

Quando sob a alegação da existência do Estado laico justificar o desmerecimento das propostas da Igreja, tenta-se instituir ações de uma moral mais liberal, não é uma exposição de indiferentismo religioso, mas sim uma proclamação descarada da fé do governo. A legalização do aborto com o pretexto de que ninguém além da mulher poderia legislar sobre o “seu” corpo, não se trata de uma mera determinação de uma liberdade pessoal, é antes disso uma negação estatal da existência de uma verdade que transpasse os limites do individualismo e do subjetivismo. Fé abrange todo um depósito de confiança quanto a uma pessoa é possível fazer, ela assim como a moral prescinde da crença na existência de Deus. O ateísmo é também um credo. É necessário não acreditar na existência da divindade para expandir os limites da “moral”, para acreditar na inconseqüência de nossas ações, ou ao menos, nas conseqüências apenas temporais.

O Estado laico inexiste. Mesmo que não dependa de uma religião organizada, é impossível a um Estado ser irreligioso. As determinações governamentais frutos da moral estatal, são como uma cortina aberta para a exposição do papel que Deus desempenha na sociedade. Não há para onde correr. Além de nossas próprias consciências, somos forçados na tentativa de assimilação da consciência partidária a conviver com as novas regras da moral social. Fazer uma crítica histórica da participação da Igreja Católica nas decisões estatais, em defesa de um Estado laico é senão estúpido, no mínimo inócuo. A religiosidade estará sempre presente enquanto seres humanos regerem as nações. Trata-se apenas de uma questão de saber a quem relegar a autoridade religiosa.


Por
Gustavo V. de Andrade