sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Lógica breve da mentira

O Iluminismo advoga o Realismo, o Racionalismo e o Antropocentrismo. O Realismo é a afirmação dos universais como Realidade Objetiva e insondável. O Racionalismo é a afirmação da razão subjetiva como Realidade subjetivadora da Realidade Objetiva, ou seja, é real o que está ao alcance do idear humano. O Antropocentrismo é a afirmação do sujeito humano como medida da Realidade Objetiva, ou seja, é real o que está ao alcance do ser humano.

O Iluminismo é irrealista porque nega a Realidade Objetiva do que é sondável. O Iluminismo é irracionalista porque ignora a objetividade do que é real e referenda a realidade do que é ideal. O Iluminismo, considerando a Realidade Objetiva como insondável e o homem como medida da Realidade Objetiva, ou é anti-humano, porque refuta a realidade sondável do homem, ou é louco, porque advoga as afirmativas cujos pressupostos, ao mesmo tempo, rechaça. Ou, simplesmente, o Iluminismo é mentira.

Por
Geraldo Vasconcelos

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Unser Liebe Fraue - Nossa Gentil Senhora

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Nossa gentil Senhora
De fresca fonte,
Aos pobres lansquenetes
Dai um sol quente!

Não nos deixeis congelar,
Sejamos acolhidos numa estalagem
Onde entremos com bolsas cheias
E ao sair as tenhamos vazias.

E os tambores,
Que troem, que troem, avante,
Lansquenetes avante!
Lansquenetes avante!

O tambor marca a marcha,
Ao vento estalam as bandeiras de seda.
É preciso entregar-se à sorte e à graça de Deus.
Para entrar em campanha.

O trigo amadurece nos campos,
A solha salta n'água corrente,
E o vento traz o rumor dos ducados,
Ele se levanta e monta em direção a Berg op Zoon.

Refrão

Nós comemos a poeira da estrada,
E nossa bolsa está oca.
O imperador devora os Flandres,
À sua saúde todos os dias!

Ele não pensa senão em regalar-se de suas conquistas,
Em dominar o mundo.
Em minha casa está meu amor,
Que chorará se eu morrer.

Refrão


*Lansquenetes, assim eram chamados certos mercenários alemães dos séculos XV a XVII. Em alemão são chamados Landsknecht (Land significa terra ou país, e Knecht, servidor).

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

A “Cantiga de Guarvaya” ou “Cantiga Ribeirinha”

Acorriam estrangeiros aos portos de Portugal, acolhia-os o Rei no intuito de aumentar a população, fazer fértil aquelas terras após os findos tempos das trevas bárbaras. Conhecido tal senhor, combatente dos mouros, ficou por Povoador. Dom Sancho I, o Povoador, segundo a subir no trono lusitano, quarto filho do monarca Afonso Henriques. Batizado fora de Martinho em honra ao santo do dia de seu nascimento, mas tendo seu irmão mais velho falecido recebeu alcunha um tanto mais monárquica, chamado ficou Sancho Afonso.

À infanta de Aragão e Catalunha, Dulce de Barcelona, teve por esposa, e com ela uma prole de onze filhos e filhas. Desses valem menção três de suas filhas, Dona Mafalda, Dona Sancha e Dona Teresa que se tornaram freiras, e por suas vidas fizeram-se beatas. O Rei não era, no entanto, tão santo, teve outros tantos filhos bastardos. Seis desses filhos ilegítimos teve com Dona Maria Pais Ribeiro, conhecida como a “Ribeirinha”.

O texto que agora apresento, escrito pelo poeta trovador Paio Soares de Taveirós, é dito ter por inspiração a Ribeirinha, e por muito foi considerado o texto literário mais antigo que se tem registro em língua portuguesa. Muitos dizem datar de 1189 ou 1198, mas parece já provar-se ter sido escrito apenas no início do século XIII, não sendo mais o mais antigo. Sendo d’antes ou depois, ter por tanto tempo sido, pois, o texto mais antigo de nossa língua-mãe, trago-o por sua importância histórica de hoje ou de outrora. Devido ao arcaísmo da escrita do chamado galego-português, trago também notas a desvendar o dito. Eis, por fim, a “Cantiga de Guarvaya” ou “Cantiga Ribeirinha”:


"No mundo non me sei parelha,

mentre me for' como me uay

ca ia moiro por uos e ay!

mha senhor branca e uermelha,

queredes que uos retraya

quando uos eu ui en saya!

Mao dia me leuantei,

que uos enton non ui fea!

E, mha senhor, des aquel di' ay!

me foi a mi muyn mal,

e uos, filha de don Paay

Moniz, e ben uus semelha

d' auer eu por uos guaruaya

pois eu, mha senhor, d' alfaya

nunca de uos ouue nem ei

ualia d' üa correa."

(por limitações técnicas é posto ü ao invés de u com til)


[VOCABULÁRIO: parelha = semelhante, igual; mentre = enquanto, entrementes; ca = pois, porque; moiro = morro; senhor = senhor(a); queredes = quereis; retraya = retrate, evoque; que uos enton non ui fea = que então vos vi linda (por litote); mi = mim; semelha = parece; guaruaya = manto escarlate próprio dos reis.]


Por

Gustavo V. de Andrade

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

A las 6 de la mañana

Um grito forte e resoluto cortava o ar soturno do México naqueles tristes anos de perseguição atroz: Viva Cristo Rey! Sem direito a julgamento fora condenado ao fuzil o Pe. José Augustín Pro. Sua face serena, sua expressão decisiva, seus olhos fixos no céu. A arma que carregava na algibeira era modesta, porém poderosa: um rosário. Palavras de devoção se elevavam de sua boca... "venha a nós o Vosso Reino e seja feita a Vossa vontade". Pareço ouvir daquele jesuíta as mesmas assertivas de Cyrano diante da proximidade da morte; “Não aqui! Sentado, não! Assim! Não me ampareis! Não quero! Venha! Quero esperá-la em pé, de rosário em punho!”. Morria Augustín Pro. Diante dele os algozes, os velhos algozes, os inúmeros algozes sempre prontos para perpetrar o assassínio contra os que testemunham a Fé verdadeira. O que era para ser uma demonstração de opróbrio público na espera que o mártir se desesperasse perante a morte, Augustín demonstra fortaleza diante do seu destino e caminha lentamente para o lugar da glória do martírio. Pede para rezar! Ajoelha-se e beija o crucifixo, estende os braços em cruz e diz: ”Dios mío, ten misericordia de ellos. Dios mío, bendícelos. Señor, tu sabes que soy inocente. Con todo mi corazón perdono a mis enemigos". Tiros secos e tristes, mais tiros. O corpo do mártir estende-se exangue no chão do México, do México de Nossa Senhora de Guadalupe. Antes de morrer porém, um grito forte, claro e resoluto cortara o céu soturno daqueles tristes anos de perseguição atroz: Viva Cristo Rey! O brado seria entoado por mais e mais homens; o governo de Elías Calles cortaria a língua dos futuros mártires para que eles não confessassem o amor a Nosso Senhor e a Nossa Mãe Guadalupana.

Foi assim que se iniciou no México uma epopéia de perseguição das mais intensas contra a Igreja, digna dos primeiros mártires da época dos césares, mas que fez a Fé daqueles católicos, quase sempre pessoas humildes, brilharem com intenso fulgor testemunhando a Religião verdadeira diante de Deus, dos homens e da história.

Se la Iglesia verdadeira

La mi vida me pidiera,

Yo diez mil le ofreciera

Por guardar la Fe entera!

Diez mil vidas yo las diera

Por la Iglesia e su bandera!


A conspiração que urdia na perseguição da Igreja se arrastava desde o século XIX, mas somente em 1926 que se culminaria em investidas mais acintosas. Sobe ao poder o maçom socialista Plutarco Calles e logo que pôde começou a executar um plano de ação tendente a destruir o catolicismo no México. No mesmo ano aprova a Reforma do Código Penal (lei Calles), expulsando os sacerdotes estrangeiros, penalizando com multas e prisões os que dêem ensino religioso ou estabeleçam escolas primárias, os que se vestiam como clérigo ou religioso, ou realizassem atos de culto fora dos templos. Em Guadalajara quem confessasse a Fé em Cristo Nosso Senhor perderia o emprego, e aconteceu de 389 funcionários perderem suas funções. As leis contra a Igreja foram em grande número... Logo mais, no dia 31 de julho de 1926 se suspendia o culto público na República do México. Eis as leis fraternas trazidas pela república... as leis da compreensão e da democracia. Se suspedia o culto público??!! Jamás! Calles não triunfará!!

Calles não triunfará! Logo se ouve às seis da manhã em Jalisco, em Guanajuata e Zatecas o grito dos camponeses, dos devotos e dos padres, das mulheres que rezavam os rosários, armas mais poderosas, e lutavam . Viva a coragem dos católicos que combatiam bravamente contra o laicismo infligido pelo assassino Calles que sempre dizia: só estamos impondo a lei. Mesmo sabendo da inferioridade numérica, eles lutavam; mesmo sabendo da inferioridade das armas, eles rezavam; mesmo sabendo da inexorabilidade da morte, eles cantavam:

El martes me fusilan

A las 6 de la mañana.

Por creer en Dios eterno

Y en la gran Guadalupana.

Me encontraron una estampa

De Jesús en el sombrero.

Por eso me sentenciaron

Porque yo soy un cristero.

Encanecidos combates singraram os solos mexicanos. Batalhas, demonstrações de Fé como a do jovem José Sanchez del Río de 13 anos que ao perceber que a morte cruenta se aproximava escreveu para sua mãezinha: “Minha mamãezinha. Fui apanhado e vão matar-me. Estou contente. A única coisa que me inquieta é que vais chorar. Não chores, nós nos encontraremos. José, morto por Cristo Rei”.

Es por eso me fusilan

El martes por la mañana

Mataran mi cuerpo débil

Pero nunca nunca mi alma


A história dos cristeros não é sabida por muitos. Não lembro de tê-la estudado nos cursinhos de história que fiz por aí. Poucos conhecem a história dos mexicanos que saiam de sombreiros e ponchos e retornavam milagrosamente de combates em que a superioridade do inimigo era atestada pelo número e pelas armas. Foi mais um capítulo nobre dos Atos dos Apóstolos, como já disseram, escrito nas terras americanas. Na terra de Nossa Senhora de Guadalupe. A cristiada, como ficara conhecido o levante, não se acabou no México. A luta dos cristeros é a mesma luta de todos os católicos em qualquer lugar do mundo e em qualquer tempo: render culto público a Deus! Apesar de render o ódio do mundo não devemos temer, pois Cristo disse: Se eles me perseguiram, perseguirão a vós também. E é uma grande honra ser odiado por quem odeia Nosso Senhor. Por isso, pueden matarme, pero no si acaba la creencia en Dios eterno. Nenhum crime ficará impune. Os sangues dos mártires clamam por vingança. Deus vingará, Deus fará justiça!

Meus inimigos voltam atrás,

tropeçam e somem à Tua presença,

pois defendeste minha causa e direito:

sentaste em Teu trono como justo juiz. (Sl, 9,4 e 5)

Dedico o texto a todos os meus amigos católicos, a todos meus verdadeiros amigos que rezam pelo triunfo da Santa Igreja, contra quem as nações se enraiveceram e os povos meditaram coisas vãs (Salmo 2,1). Viva Cristo Rey!


Por
Antônio Manuel da Silva Filho

O Estado Religioso


No campo das idéias a contradição é uma figura tenebrosa, uma enfermidade. Contradizer-se é, não raro, motivo suficiente para a ridicularização do pronunciante e funciona apenas para o seu descrédito. Antes de desejarmos não nos contradizermos com medo das opiniões alheias, o fazemos pelo bem da sustentação de nossas idéias. Exigimos de nós mesmos um encadeamento lógico das mesmas, pelo bem de nossa própria saúde mental.

Visando a não contradição nossos pensamentos acomodam-se em nossas cabeças, por vezes a grande custo, de modo que haja espaço para todos e que fiquem perfeitamente alojados. Mesmo as mais excêntricas das idéias não podem conflitar-se pelo bem de seu defensor, posto que é difícil respeitar às idéias de alguém que não respeita à própria consciência. É comum que a maturidade nos sirva para a coesão das idéias, a proximidade que elas passam a apresentar, tornam-nas polidas e espelho umas para as outras. Os pensamentos passam a ser tão complementares uns aos outros que ao se expor um, outros parecem visíveis pela dedução, ou mesmo pela intuição, e se seguem fluentemente. Há uma idéia, porém, que consegue revelar as outras com maior grandeza, parece refletir a própria essência de nossa formação intelectual, esta idéia é a que fazemos de Deus. Um velho halterofilista barbado ou o sol que traz a colheita. A Verdade ou uma mentira. Não é o caso de que todas as idéias se desprendam dessa, mas o fato é que a partir dela a exposição de ideologias parece bem mais clara.

As linhas doutrinárias de um partido político estabelecem determinados parâmetros ideológicos, que se aplicam sobre diferentes áreas. Embora no Brasil os partidos se misturem numa única e invariável malha putrefata de imoralidade, ainda permeia o idealismo de que os partidos carregam bandeiras representativas de seus objetivos. É no que tangencia a ideologia pessoal com a partidária que os políticos definem sua direção, escolhem qual “bandeira” erguerão. É dito então que dentro dos partidos se supõe linhas ideológicas gerais a serem seguidas, interdependentes, que se organizam no estatuto assim como as idéias em nossa mente. Assim como nossa consciência estabelece limites éticos e morais para as nossas ações, o partido estabelece normas e objetivos gerais, explícitos ou implícitos, a serem obedecidos por seus membros.

O deputado federal Luiz Bassuma (PT/BA), presidente da Frente Parlamentar Contra o Aborto, sofreu represálias do presidente do PT da Bahia, Marcelino Galo por defender idéias que seriam contrárias à posição do partido a respeito do tema aborto, mesmo que, como tenha respondido, Bassuma não tenha ferido nenhum ponto programático do PT. Vê-se no caso do deputado baiano que os partidos têm sim proposições morais determinadas e que invariavelmente se relacionam a um direcionamento da religiosidade, mesmo que se acredite ser esta inexistente na política atual. Assim como é a idéia que fazemos da divindade a que melhor reflete nossas opiniões sobre outros assuntos diversos, assim também podemos perceber qual a visão que determinados partidos revelam de Deus. No livro-debate “No que crêem os que não crêem”, o progressista cardeal Carlo Maria Martini questiona a seu interlocutor, Umberto Eco, de onde proviria a moral daqueles que não acreditam em Deus, posto que não via como poderia esta existir sem Ele. Eco prontamente respondeu explicando que a moral não depende da crença em Deus. O cardeal Martini estava errado (não pela primeira e nem pela última vez). A moral pode não prescindir da crença em Deus, mas está intrinsecamente relacionada à divindade e, portanto, a religiosidade do indivíduo. Do materialismo supõe-se o ateísmo, visto que tem como valor apenas o que é sensível; neste sentido se expõe a confusão gerada pelo deputado baiano, pois mesmo que o PT tenha, aos olhos da mídia, tentado se “endireitar” continua a ser um partido formado nas bases do comunismo.

Quando sob a alegação da existência do Estado laico justificar o desmerecimento das propostas da Igreja, tenta-se instituir ações de uma moral mais liberal, não é uma exposição de indiferentismo religioso, mas sim uma proclamação descarada da fé do governo. A legalização do aborto com o pretexto de que ninguém além da mulher poderia legislar sobre o “seu” corpo, não se trata de uma mera determinação de uma liberdade pessoal, é antes disso uma negação estatal da existência de uma verdade que transpasse os limites do individualismo e do subjetivismo. Fé abrange todo um depósito de confiança quanto a uma pessoa é possível fazer, ela assim como a moral prescinde da crença na existência de Deus. O ateísmo é também um credo. É necessário não acreditar na existência da divindade para expandir os limites da “moral”, para acreditar na inconseqüência de nossas ações, ou ao menos, nas conseqüências apenas temporais.

O Estado laico inexiste. Mesmo que não dependa de uma religião organizada, é impossível a um Estado ser irreligioso. As determinações governamentais frutos da moral estatal, são como uma cortina aberta para a exposição do papel que Deus desempenha na sociedade. Não há para onde correr. Além de nossas próprias consciências, somos forçados na tentativa de assimilação da consciência partidária a conviver com as novas regras da moral social. Fazer uma crítica histórica da participação da Igreja Católica nas decisões estatais, em defesa de um Estado laico é senão estúpido, no mínimo inócuo. A religiosidade estará sempre presente enquanto seres humanos regerem as nações. Trata-se apenas de uma questão de saber a quem relegar a autoridade religiosa.


Por
Gustavo V. de Andrade