sábado, 21 de março de 2009

Coisas da Razão

Corrupção é uma palavra bem familiar na boca de qualquer brasileiro que use o mínimo da razão. Vem acompanhada de outro termo carregado de significados e adjetivos não tão gloriosos, político. Político, corrupção, Brasília, lavagem de divisas, tráfico de influência, ignorância, pirataria, pobreza; palavras que bem desenhadas sintetizam um pouco nosso país.

Ao andar pelo centro da cidade do Recife e em alguns bairros periféricos assistimos indiferentes e coniventes um amontoado de suportes que vendem produtos piratas. À vista da polícia, eles vendem; à vista da justiça eles vendem. É uma multidão de múltiplos produtos, que se vendem ao arrepio das leis. A ilegalidade estrita comprada e vendida sob o nosso consentimento.

A corrupção, prostituta íntima de Brasília, lança seus tentáculos em todo Brasil. Falta dinheiro para se investir em áreas essenciais para nosso desenvolvimento e sobram os desqualificados para o mercado de trabalho. Resultado, pobre, desqualificado e obrigado a trabalhar para não mendigar. Muitos enveredam pela via mais fácil, pirataria, ilegalidade, corrupção. E quem fornece a pirataria? Quem tem dinheiro para bancar o produto e quem tem arma para garantir a segurança do produto até o consumidor. Se a polícia ostensiva deveria coibir o roubo e o furto que ostensivamente poderemos ser vítimas, certamente gente “armada” ganha com tudo isso. A equação é simples e dinheiro extra é sempre bem vindo. Pega-se a massa desqualificada e sem princípios, como as maiorias das pessoas são e põem a vender produtos que vêm das máfias do mundo inteiro. A polícia tem as armas e os políticos têm o interesse da proteção e da perpetuação desse crime. Resultado é direto, dinheiro fácil e voto fácil e todo mundo que é envolvido ganha de alguma forma.

Estes sub-militares ganham com a mensalidade dos vendedores, quando não são empregados diretos, os agentes sociais são pagos pelos militares e aliciam os eleitores que garantem as vitórias eleitorais. Nunca é uma questão de ideologia, é uma questão de quem paga mais. E todo mundo é culpado e corrupto, do rico ao pobre. Eles se entendem muito bem, pois o espírito que os anima é o mesmo.

Coisas da razão é só parar e pensar. E todos entram na indústria do entretenimento regada a pornografia, violência e morte. E ainda surgem as pessoas que aos montes caem das nuvens e não entendem porque a sociedade está de cabeça para baixo.

Tudo isso é possível, pois vivem numa sociedade sem Deus, sem nobreza, sem espírito de sacrifício. Os maiores criminosos e piratas foram os que lançaram os princípios desse mundo que vive etsi Deuns non daretur (como se Deus não existisse). Mas o que era oculto sempre se revelará... Todo crime se revelará.

Por
Antônio Manuel

sexta-feira, 13 de março de 2009

Uma Introdução ao Distributivismo - Parte II

Por John C. Médaille



O Keynesianismo foi adotado por quase todos os regimes modernos, seja de direita ou esquerda, porque parecia funcionar. Como resultado, as instabilidades inerentes ao Capitalismo se tornaram menos extremadas, com depressões muito mais leves do que a convulsão que abalou o país na década de 1920. Mas o Keynesianismo aumenta o poder estatal, os impostos, e o tamanho do governo para níveis antes inimagináveis. Nós passamos a nos acostumar ao governo resolvendo todos os problemas, mesmo os de mais altos níveis. Até mesmo administrações de direita abandonaram todas as pretensões de “federalismo” e buscaram interferir cada dia mais em nosso dia-a-dia; o professor na sala de aula, o policial em sua ronda, o comerciante em sua loja são cada vez mais objetos de interesse federal ao invés de regulação local.

Mas hoje o futuro da organização Keynesiana parece duvidoso. Tanto na Europa quanto na América, os custos de manutenção do governo parecem estar a ponto de superar a capacidade da sociedade de suportá-los. E ainda mais, o interesse corporativo de manter tal organização vem diminuindo; investiram grandes quantias e muita energia na busca por um fim para o sistema e sua busca tem dado resultado. As corporações têm tentado externar os custos que fazem parte do sistema remuneratório, tais como seguro médico, pensões, e seguro desemprego. No entanto, é pouco provável que a mudança dessas responsabilidades possam ser mudadas sem que sejam re-introduzidas as inseguranças que acarretaram em tal arranjo em primeiro lugar. Assim o Keynesianismo chega a uma encruzilhada, a mesma apontada por Belloc. A barganha Keynesiana não pode continuar (especialmente diante da competição global), e não pode parar por conta dos riscos envolvidos.

A teoria econômica do Distributivismo é baseada na distinção existente entre justiça distributiva e justiça corretiva encontrada em Aristóteles. Justiça Distributiva lida com o modo como a sociedade distribui seus “bens comuns”. Aristóteles define isso como “coisas que acabam por ser divididas entre aqueles que participam na constituição” (Nicomachean
Ethics, 1130b, 31-33). Isso se refere aos bens comuns de um estado, parceria, corporação, ou empreendimento cooperativo. Para Aristóteles, essas coisas deveriam ser divididas por “mérito” baseado em contribuições, mas tal mérito seria essencialmente determinado culturalmente, “os democratas identificam-no com o status de ser livre, os partidários da oligarquia com a riqueza (ou com nobre nascimento), e os apoiadores da aristocracia com a excelência” (Ethics, 1131a, 25-29). Justiça Corretiva, por outro lado, lida com “justiça em transação”; que significa transação entre indivíduos. Nesse caso a justiça significa a troca de iguais valores, em “ter uma quantia igual antes e após a transação” (Ethics, 1132b, 19-21). Justiça Corretiva é o núcleo da ciência social per se, enquanto a justiça distributiva é irredutivelmente cultural e envolve decisões a respeito do que de fato constitui uma justa distribuição.

A economia moderna tende a tratar a justiça distributiva de duas formas distintas. Para os socialistas ou keynesianos, é primeiramente uma questão política e necessita do controle da economia pelo estado. Para o ortodoxo economista neoclássico, a justiça distributiva será o resultado da conquista do equilíbrio sob condições de perfeita competição (cf. John Bates
Clark, The Distribution of Wealth); em outras palavras, equidade seria um resultado necessário do equilíbrio. Daí a justiça distributiva é incorporada pela justiça corretiva sem a necessidade de tal intenção de qualquer parte, a real essência da teoria da “mão invisível”. No entanto, isso nunca aconteceu e provavelmente nunca irá acontecer. Não é o caso que as condições necessárias (competição “perfeita”) nunca possam ser satisfeitas, nem que a justiça, uma virtude, não possa ser separada da intencionalidade humana. Em verdade, o problema é com a própria natureza da justiça corretiva, que é “equidade na transação”. Já que a justiça corretiva tende a perpetuar qualquer que seja a divisão existente antes da troca; a equidade distributiva, portanto, não pode resultar de transação (Cf. Pareto optimality). Mas para o Distributivista, a justiça distributiva precede à justiça corretiva (como era para Aristóteles e Tomás de Aquino), assim como a produção precede à transação. Assim equidade precede equilíbrio, e equidade dependerá da distribuição dos meios de produção. Equidade não é o resultado do equilíbrio, mas sua causa; na verdade, equidade e equilíbrio são praticamente palavras sinônimas e praticamente a mesma coisa.

Distributivismo é normalmente visto como um movimento romântico de “volta ao campo”, ou ainda um desejo de voltar à Idade Média. Mas essas críticas são injustificadas. De fato, a boa divisão da propriedade tem tanto uma longa história quanto uma presença corrente. Dois exemplos devem bastar: os programas “terra ao agricultor” da Coréia e de Taiwan, e a Corporação Cooperativa Mondragón. Na Coréia e em Taiwan após a II Guerra Mundial os estados estavam quebrados e venderam aos camponeses por preços bem abaixo dos valores de mercado. O resultado foi que o crescimento do poder aquisitivo de antes pés-rapados camponeses patrocinou o desenvolvimento dos negócios e indústrias, e levou essas nações de sociedades opressivas a modernos países industriais em apenas uma geração. Na Cooperativa Mondragón, 77.000 trabalhadores-proprietários fazem $16 bilhões por ano em vendas, fazendo de tudo desde bocais de armas de caça até fábricas pré-moldadas. Eles também operam uma extensiva rede de programas sociais, escolas, faculdades, institutos de treinamento e centros de pesquisa. Podemos citar um grande número de ESOP´s (Plano de Propriedade Acionária de Empregados) e outras empresas geridas por empregados. Assim o Distributivismo parece ser perfeitamente adaptável ao mundo moderno e ainda confere vantagens competitivas.

Leão XIII na Rerum Novarum o salário justo como meio de distribuir à propriedade; Belloc reverteu isso ao crer que espalhar a propriedade era o meio para chegar-se a uma justa recompensa. Nisso Belloc parece estar correto, assim como reconheceu João Paulo II ao clamar para que se associasse o trabalhador à propriedade do local onde ele trabalha. Deve ficar claro que o único jeito de reduzir o tamanho do governo e aumentar o alcance da liberdade e da justiça é eliminando a necessidade de um grande governo. Mas enquanto existem diferenças abismais entre pobres e ricos, haverá uma grande burocracia em governo e indústrias.
*Para mais informações confira também o blog "The ChesterBelloc Mandate" nos links.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Uma Introdução ao Distributivismo - Parte I

Por John C. Médaille

Distributivismo, também conhecido como Distributismo, é uma teoria econômica formulada por Hilaire Belloc e G. K. Chesterton em grande parte em resposta aos princípios de Justiça Social assentados por Leão XIII com sua encíclica Rerum Novarum. Seu ponto chave é que a posse dos meios de produção deve estar espalhada o máximo possível ao invés de concentrada nas mãos de poucos (Capitalismo) ou, do outro lado, nas mãos de burocratas estatais (Socialismo). Belloc não achava estar desenvolvendo uma nova teoria econômica, mas em verdade estar expondo uma velha e conhecida, em oposição às novidades do Capitalismo e do Socialismo.

Belloc acreditava que o Capitalismo não podia por si próprio chegar a um equilíbrio econômico. É um sistema instável por duas razões: divergências de sua própria teoria moral e por dois tipos de insegurança*. A teoria moral do Capitalismo é baseada na liberdade, mas tende a acumular propriedade na mão de poucos proprietários; enquanto a propriedade fica cada vez mais limitada, mais e mais poder passa para as mãos de uma pequena classe capitalista. O estado passa a ser uma ferramenta para proteger os “acordos salariais” que se tornam cada vez mais vorazes, ou seja, baseados em desigualdades**. Um lado pode recusar o contrato (o empregador), mas o outro lado, o trabalhador, geralmente não tem escolha senão de aceitá-lo, pois a alternativa é a fome. O estado já não pode mais ser um árbitro neutro entre classes, e passa a favorecer a classe da qual depende todo o trabalho e crescimento.

Além desse problema moral, o Capitalismo também acarreta dois tipos de insegurança: insegurança para os trabalhadores e mesmo insegurança para os capitalistas. Para os trabalhadores, pois o salário é menor para os mais velhos, e ausente para doentes, e o trabalho propriamente dito fica a critério dos capitalistas*** (“terceirização”). Mas o Capitalismo também produz insegurança para os capitalistas. A anarquia competitiva faz o sistema tão instável para os proprietários quanto é para os trabalhadores, resultando em excessos e escassezes. Capitalismo responde tornando-se menos “capitalístico”; levanta barreiras legais para a competição e limita o endividamento (aumento do crédito ou capital passivo); a corporação é em si mesma uma adaptação à instabilidade inerente ao Capitalismo que permite aos investidores limitar os riscos****. O socialista não teme o Capitalismo puro quanto o teme o capitalista fervoroso.

Devido às suas instabilidade o Capitalismo necessita encontrar um modo de se estabilizar. Belloc dizia só haver três soluções possíveis: escravidão, socialismo ou a propriedade dos meios de produção o máximo espalhado possível, (ou alguma mistura dos três). “Para ajeitar o Capitalismo você deve se livrar da propriedade restrita, ou da liberdade, ou de ambos”5. Das três soluções, as sociedades escravocratas se mostraram instáveis por longos períodos de tempo, e ainda mais essa solução foi excluída por nossa herança Cristã. Mas a terceira solução, o que Belloc chama de “estado proprietário”, é visto como indesejável pelos intelectuais e elites políticas, restando apenas a segunda opção, algum tipo de Socialismo. Apesar de na prática o Capitalismo gerar uma teoria coletivista que leva a um estado servil******. O caminho para o Socialismo segue a linha de menor resistência porque nada muda de fato quando o governo compra os sistemas hidráulicos ou as linhas de ferro*******. Mas a prática socialista não quer realmente dizer Socialismo. Na prática, o Socialismo significa apenas um aumento da regulação, uma solução que agrada tanto aos interesses corporativos e aos “reformadores” socialistas. Apesar da retórica diferente o resultado é semelhante. O reformador “socialista” passa a empilhar regulamentações sobre os grandes negócios, uma situação que os grandes negócios estão felizes por ver, pois como resultado essas regulamentações servem como barreiras de entrada para competidores e, portanto, garantem uma maior segurança na competição e uma maior segurança nos lucros. Em resposta, o capitalista deve ter um maior cuidado de seus trabalhadores para alcançar maiores lucros. No fim, não se tem nem Socialismo nem Capitalismo, mas servilismo, o estado servil********. O resultado prático disso tudo é que o trabalhador acaba cada vez mais dependente do governo e das soluções corporativas. Seguro de saúde, seguro desemprego, e os benefícios da aposentadoria passam do controle do indivíduo para o controle do estado corporativo.

O sistema servil já começou. Na verdade já está entre nós. As diferenças entre uma Europa “socialista” e uma América “capitalista” são mais diferenças de gradação do que de espécie. Ambos dependem das mesmas organizações e sistemas de bem-estar social. Esse estado das coisas não aconteceu por meio de conspiração, mas por meio de necessidade; Belloc parecia estar realmente certo em suas previsões. Até a década de 1940, o Capitalismo era um sistema altamente instável sofrendo crescentes ciclos de euforia econômica e de depressão, culminando na Grande Depressão de 1930. O sistema precisava de ajuda para se estabilizar, justamente como havia dito Belloc. A real mudança veio com a implementação da economia Keynesiana, que tornou o governo não apenas responsável por esse ou aquele programa de bem-estar social, mas por inventar baixas procuras pela redistribuição de impostos. Em outras palavras, o Keynesianismo é ele mesmo “distributista”, ou melhor “redistributista”; mas ele distribui renda ao invés de propriedade. Logo, o debate não é entre Distributivismo e seu oposto, mas entre tipos de Distributivismo, entre redistribuição de renda e distribuição de propriedade. Mas de um jeito ou de outro, o liberalismo econômico não pode prover estabilidade por si mesmo; precisa da ajuda de distributistas de um tipo ou de outro. Redistribuição de renda, sendo um processo constante, sempre carecerá de um vasto aparato estatal para regular os fundos de um lado e determinar a elegibilidade do outro.



* Hilaire Belloc, The Servile State (Indianapolis, Indiana: Liberty Classics, 1977; reprint, 1913), 108.
** Ibid., 111.
*** Ibid., 113.
**** Ibid., 115-19.
***** Ibid., 122.
****** Ibid., 125.
******* Ibid., 129-30.Ibid., 146.
******** Ibid., 146.

quinta-feira, 5 de março de 2009

O aborto e seus sofismas

Umas das medidas atuais para se conhecer a fidelidade de um prelado da Igreja à Ortodoxia tem sido o quão mal falam dele na imprensa. Nesse sentido Dom José Cardoso Sobrinho tem se mostrado irredutível às vontades e opiniões da mídia, mesmo quando a verdade é tão impunemente falsificada basta ver o recente caso da garota de 9 anos que foi levada a abortar. As notícias tem sido de que Dom José decidiu excomungar os responsáveis, como se fosse um mero desejo dele, as excomunhões em caso de aborto, no entanto, ocorrem “latae sententiae”, expressão latina que significa “sentença oculta”, tal sentença não depende de julgamento algum, é acarretada pelo ato em si, ou seja, não só nesse caso em particular, mas em todos os casos de aborto, aqueles que o praticarem conscientes das restrições incorrem automaticamente na sentença.
Para melhor ilustrar o debate sobre o aborto (não desse caso específico, mas como tema recorrente) trago um texto de Percival Puggina a tratar do assunto.
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O aborto e seus sofismas
Por Percival Puggina
Dezenas de debates e de artigos, ao longo de mais de duas décadas, me permitem assegurar algo talvez surpreendente, mas comprovadamente verdadeiro: os defensores do aborto não têm um único argumento válido. Tudo de que dispõem são motivos e sofismas.
Os abortistas alinham, por exemplo, situações que podem levar uma mulher a querer abortar (estupro, dificuldades financeiras, problemas familiares, traumas e por aí afora). No entanto, descrições de motivos não são argumentos. E estão muito longe de constituírem razões para sustentar a idéia de que o ato de abortar constitui direito natural da mulher. O fato de que praticamente todos os crimes sejam praticados com algum motivo mais ou menos grave não os descaracteriza como crimes em si mesmos. Os motivos servem, se tanto, como atenuantes do dolo ou da culpa.
Também os sofismas dos abortistas são incontáveis. Vestem sistematicamente a roupagem ilusória do raciocínio correto, concebido e organizado para induzir ao erro. É o que ocorre, por exemplo, quando dizem que o Brasil é um estado laico, e que, portanto, a posição religiosa contrária ao aborto não pode ser aceita. A afirmação inicial está correta - o Brasil é um Estado laico - mas a conclusão é absurda porque, se válida fosse, tampouco a tortura deveria ser proibida pelas mesmas razões (a Igreja é contra a tortura). É o que fazem, também, quando alegam que as mulheres ricas praticam aborto em clínicas luxuosas ao passo que as mulheres pobres, etc. etc. etc. Isso é verdadeiro, mas o aborto é proibido para ricos e pobres. Vale o mesmo para a afirmação de que a mulher é dona do próprio corpo (o que já meia verdade porque nenhum médico realizará procedimentos mutiladores), frase que em nada serve para justificar o desejo de dispor do corpo de outro ser humano, vivo e diferente do corpo da mãe. E vale, por fim, para o mantra de que nossa legislação “é hipócrita porque se praticam milhões de abortos no país”. Se tal argumento fosse aceitável, toda a legislação penal, os códigos de posturas e o código de trânsito deveriam ser revogados pela mesma razão.
A Constituição Federal está eivada de dispositivos que conferem ao Estado o dever de assegurar direitos individuais. No fundo, o que os abortistas pretendem é estabelecer que o aborto é direito da mulher e dever do Estado. E defendem essa tese sem o menor constrangimento! Não apenas apresentam motivos como se fossem razões, não apenas esgotam as artimanhas sofísticas, não apenas exibem como argumento a própria tese que pretendem demonstrar. Não, tudo isso é pouco perante a monstruosidade que realmente desejam como produto de todas essas mistificações: fazer com que os filhos das aventuras, das imprudências e dos desatinos sejam executados pelos carrascos do Estado. Ora vão criar vergonha!

"Gabriel´s Oboe" por Ennio Morricone

Eis um vídeo do maestro e compositor Ennio Morricone conduzindo "Gabriel´s Oboe", trilha sonora do filme "A Missão". Segue a sugestão do filme, para quem ainda não viu.


A moral e o tênis

Por J. J. Grinda


Estou quase convencido de que os partidários da moral subjetiva* não são fãs do tênis, nem de jogar nem de assistir.

Esta afirmação – que estou disposto a provar cientificamente, com estatísticas, percentagens e o resto – tem mais importância do que parece. Não vou arrasar o leitor – aqui e agora – com núme­ros, índices e gráficos, mas pode tomar esta opinião como praticamente certa.

Como em todas as grandes descobertas, tive a primeira intuição do assunto de um modo casual. Sim, estava precisamente debaixo de uma ár­vore; mas não se alarme ninguém porque não me caiu maçã nenhuma. Estava debaixo de uma árvore e acima de um campo de tênis. A direita, um joga­dor; à esquerda, outro. Eu como único espectador.

O da direita lançou um saque terrível, que entrou perfeitamente no espaço regulamentar. O da esquerda nem teve tempo de entrar com a raquete, mas teve tempo de dizer: “Fora! Foi fora!”.

O da direita voltou a sacar – um pouco abes­pinhado –, mas com muito menos força. O da esquerda respondeu-lhe com um golpe fortíssimo, cruzado, mas que lamentavelmente caiu um pouco fora da quadra. “Dentro!”, gritou imediatamente.

O pior do caso é que o da esquerda era meu amigo. O da direita veio até mim em busca de ajuda, como se eu fosse o próprio Salomão. Lembrei-me daquilo de que “amigo de Platão, mas mais amigo da verdade” e, quase sem olhar para o meu amigo, disse-lhe: “Quando você disse «fora» foi dentro, e quando você disse «dentro» foi fora”.

― Impossível – gritou o meu amigo.
― Por que impossível? – respondi-lhe.
― Porque eu vi que o saque da direita foi fora e vi que a minha devolução foi dentro. Foi dentro! – repetiu.
― Você viu completamente fora o que foi completamente dentro e viu dentro o que foi com­pletamente fora?
― Sim! – repetiu com total convicção.


SINCERAMENTE ENGANADO

O grave não era que o meu amigo estivesse mentindo ou pretendesse enganar-nos. O grave era que o meu amigo era sincero.

Quase todos os tenistas são sinceros quando dizem “dentro!”, ainda que tenha sido fora (ao menos, vá lá, em 87,5% das vezes), e o mesmo quando dizem “fora!” (outros 87,5% das vezes). O mau é que a sua sinceridade os engana e, curiosamente, vêem as bolas dentro ou fora conforme lhes convém vê-las dentro ou fora.

A nossa própria consciência, sozinha, pode enganar-se.

Algumas morais e éticas subjetivistas parecem fazer esforços quase titânicos – como os que fazia o meu amigo – para nos convencerem de que o que está fora (por exemplo, da lei de Deus e da Igreja) está dentro, e o que está dentro, fora. Um exemplo: ante as trapaças na vida conjugal, a lei de Deus e da Igreja dizem: “Fora!”, e alguns subje­tivistas não fazem mais do que gritar freneticamente: “Dentro!”.

Não caem na conta de que podem enganar-se, como o meu amigo tenista. Talvez valesse a pena que os partidários da consciência como único juiz da ordem moral dessem uma volta pelos campos de tênis ou, até melhor, que eles mesmos empunhas­sem uma raquete. Aposto seja o que for que mais de uma vez diriam “Fora!”, naturalmente à bola do adversário, e aposto igualmente que, havendo espec­tadores e juiz, teriam que escutar uma multidão de vezes: “Não, amigo; a bola foi dentro”.

Um jogo de tênis baseado unicamente na apre­ciação subjetiva dos jogadores poderia ser ocasião de revelar ou atingir uma grande maturidade e um alto ideal. No entanto, a realidade – triste por um lado, mas alegre por outro – nos diz que seria um jogo com muita trapaça. Trapaças cheias de boa vontade e auto-convicção sinceríssima, o que seria justamente o pior do assunto.

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(*) O autor refere-se à idéia, hoje espalhada em certos meios, de que a bondade ou maldade dos atos hu­manos deve ser julgada, não em função dos critérios obje­tivos de moralidade – lei de Deus e lei natural –, mas por cada pessoa de acordo com as suas próprias opiniões ou sentimentos (N. do T.).
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quarta-feira, 4 de março de 2009

Estrangeiro na floresta

As densas gotas da chuva tropical pesam sobre as folhas das árvores e caem se juntando em poças na terra. O som das gotas de chuva é monótono. Monótono e grandioso. Elas caem sozinhas e isoladas, sem serem vistas por olhos humanos. Respingam nos galhos, nos troncos, nas flores e folhas, na terra, nas pedras, na própria lama, mas juntas fazem um só som. Um som monótono e grandioso.
Mas em meio à floresta há um estrangeiro, enrolado em panos delicados, e encharcados pela chuva. Na terra jaz o estrangeiro, com seus pequenos olhos fechados, e seus pequenos braços e pernas agitados. Ele gritava chorando, mas a chuva gritava mais alto e suas lágrimas eram nada perto das densas gotas. E ele gritava mostrando a boca faltando os dentes. Era um bebê o estrangeiro, e era estrangeiro, pois ali, sozinho, não pertencia. Fora entregue à própria sorte. E todos sabem que a sorte de um bebê entregue à própria sorte é uma só, e é a pior delas. Largado só, na selva; não há forças no infante para sequer saber como lutar pela própria vida. Eis a sorte do estrangeiro.
É estranho que tal cena nos cause o senso de injustiça no abandono da criança, mas não creiamos ser injusto que ela precise não ser abandonada; não nos passa à mente que seja injusta a fragilidade do bebê, mas apenas o abandono dele à sua própria fragilidade.
É triste ver o orgulho dos tempos, dos nossos tempos, em que se aceita à necessidade da nutrição da carne, do ensino da sobrevivência e do teste das forças do corpo, mas se crê na absoluta independência do homem de qualquer realidade externa que o venha formar espiritualmente. Não falo da crença em si, que pode ser variada e por vezes até bem próxima do ideal, mas da descrença na necessidade do ensino da realidade espiritual. Os ateus são em menor número, isso é fato, mas aqueles que dizem crer em Deus, em sua maioria, já não buscam por uma Verdade que os transcenda, mas apenas uma “verdade” que os satisfaça. Esses são como crianças chorando abandonadas na selva.

Situação hipotética: a criança consegue sobreviver, bebendo nos primeiros anos água da chuva e seiva das árvores, e comendo insetos, sem que seja preza de predador algum. Mas cresce fraco pela comida que não é sua própria, e não cresce para andar de pé. Faz-se todo homem, mas não vive como tal.
Ou se sua sorte for de grande acaso, é criado por macacos, tal qual Tarzan. Ou bebe leite das tetas de uma loba tal qual Rômulo e Remo. Anda como macaco, ou ainda quase como lobo, come o que come o macaco, e mal conseguiria caçar como caça um lobo, mas faria isso tudo ainda com a aparência de um homem.
Nas duas situações, no entanto, apesar de ter forma de homem, falta-lhe humanidade. E essa, se é própria do ensino de pais para filhos, essa se é tão vital para a vida da carne sem que nos questionemos que seja injusta, por que não haveria justiça na transmissão dos conhecimentos de sobrevivência espiritual?

segunda-feira, 2 de março de 2009

Iesu Dulcis Memoria

LADAINHA LAURETANA - Mãe Imaculada


Como em pré-figura falou Isaías “o próprio Senhor vos dará um sinal: uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e ele se chamará Emanuel (Deus conosco)”. E assim Deus não desamparou-nos na esperança da profecia e fez a Maria, de pureza imaculada.
Imaculada Conceição, assim ela mesmo, Mãe de todos os homens apresentou-se à pequena Bernadete em Lourdes, sem que essa em sua inocência nem mesmo se desse conta das palavras que ouvia. Tão ornada de glórias foi a Bem-aventurada que a ela coube o duplo privilégio da maternidade e da virgindade.
Pura de toda mancha desde o nascimento deu à luz ao menino Jesus, ainda preservando sua pureza, pois a criança, Filho de Deus, era como a luz que atravessa os vitrais, e que ao invés de rompê-los os embeleza e engrandece. E por toda a vida depois nada vez para violar a solene promessa que havia feito.


Concede-nos, ó Mãe, teu auxílio na luta contra a tentação, para que vençamos na graça de Deus.

sábado, 31 de janeiro de 2009

A chama do Papa


A recente decisão do Papa Bento XVI de retirar as excomunhões que pesavam sobre os quatro bispos da Fraternidade Sacerdotal São Pio X está causando um verdadeiro furor vulcânico no frio inverno romano. Aqui e acolá se assiste a amplos debates acerca do real significado deste histórico decreto que readmite na grei católica, também agora juridicamente, os quatro sacerdotes sagrados pelo então Arcebispo D. Lefebvre, co-assistido pelo não menos heróico bispo brasileiro D. Antônio Mayer. Como um Nero às avessas, desde o início do pontificado do Papa atual, Roma pega fogo por suas declarações e decisões, em destaque a ampla liberação da Missa Antiga, através do Motu Próprio Summorum Pontificum. Com uma sensível diferença: Nero fundamentou a destruição, pelo fogo, para modernizar a parte antiga da cidade. O que se viu foi o choro e ranger de dentes das pobres almas, e ainda os inocentes, os católicos, foram acusados de serem os responsáveis pelo incêndio criminoso. Parece que sempre se pretende modernizar em Roma quem sofre são os católicos. Por outro lado, o fogo que o Papa está causando é o que purifica e eleva as almas para o céu. É o fogo que ensina o caminho do paraíso e sempre aponta para o alto. O fogo que traz vida e não a morte.

Mas o assunto não é propriamente sobre fogo, mas sobre o decreto que retira as excomunhões dos quatro bispos, D. Fellay, D. Tissier, D. Williamson e D. Galarreta. Após esta decisão de reparar um ato do passado, os meios católicos e não católicos reagiram de plurívocas maneiras. Devido a uma opinião de D. Williamson, veiculada através de entrevista concedida a uma TV sueca em novembro do ano passado, sobre o morticínio de judeus durante o nazismo, a imprensa mundial, em sua maioria patentemente anticatólica, tomou as dores dos eternos judeus perseguidos e encetaram a acusação de que o Papa reabilitara bispo “negacionista”, induzindo a opinião pública a acreditar que o Vigário de Cristo fosse ocultamente um nazista, sem direito às eloqüentes e teatrais paradas militares que ficaram conhecidas universalmente. Sazonalmente é comum fazer a absurda acusação que o Papa foi nazista ou que governa a Igreja como um hitlerista de branco.

Por óbvio, da polêmica declaração do bispo, não se esperava nada diferente dessa reação desmesurada. Essa crítica veio a calhar muito bem para os que não são católicos e não estão muito preocupados com a posição do Papa e da Igreja, pois já superaram a limitação das visões religiosas e vivem seu agnosticismo superficial e festivo. A opinião veiculada pela mídia servirá para que reproduzam suas posições pessoais com mais um enfeite de crítica contra a Igreja: Este Papa é mesmo um truculento nazistóide, autocrático, fundamentalista e etc, etc e etc. Servirá também para que os protestantes fiquem mais protestantes, que os judeus não tão judeus permaneçam na mesma, enfim, a irresponsável e demasiada propagação dessa confusa entrevista, unida a opiniões insensatas, não trouxeram nem farão um bom serviço às almas. Mas respeitemos, todos têm direito à informação assegurado constitucionalmente. Brindemos, pois, as conquistas destes direitos em outra ocasião, o momento é por demais sério para massagearmos o espírito com algum vinho. Ah! Lembrei de um ditado romano, dos antigos romanos, “in vino veritas”, mas o que é a verdade? Pergunta o jornalista e o estudante sabido. Deixemos o vinho, o jornalista e o estudante sabido de vez, voltemos ao assunto.

O que mais chama a atenção, por outro lado, não é o foco gerado pelo bispo Williamson que já escreveu ao Vaticano pedindo desculpas sobre a entrevista, é o efeito dentro da Igreja e a emissão de entrevistas e artigos de sabidos e não sabidos que vicejam no redil católico. Percebem-se opiniões díspares e muitas vezes contraditórias. Se não, vejamos alguns que destaco. O L´OSSERVATORE ROMANO do dia 25 de janeiro de 2009, na pressa de ver conexão entre o espírito do Concílio Vaticano II e a decisão do Papa, em seu editorial diz que o Papa usou “do gesto de misericórdia que deve alentar aos membros da Fraternidade Sacerdotal São Pio X a acatar o Concílio Vaticano II (eles não estão obrigados a acatar o CVII) que após meio século de seu anúncio está vivo na Igreja".*(destaque meu) Ademais, o editorial ainda afirma que esse gesto de misericórdia estaria de acordo com a intenção dos predecessores do Papa Bento, assim como o bondoso João XXIII. Ora, e a decisão de excomungar os quatro sacerdotes na época e também os bispos consagrantes? Essa decisão, em 1988, estava em conformidade com o espírito do Concílio? A confusão do editorial é ridícula... Ou provocadamente desonesta.

Pelo caminho inverso o modernista site francês, Golias, anuncia que “colocando UM CISMA no coração da Igreja Católica, o Papa Bento XVI assumiu uma pesada responsabilidade: a de querer consertar um cisma integrista provocando um outro". A ousadia não pára por aí e ainda sentenciam, “esta decisão constitui um ponto sem retorno na confiança que alguns (quem são esses alguns?) ainda mantinham nos responsáveis (ou no RESPONSÁVEL?) da Igreja. Nesse sentido, Bento XVI, cedendo às pressões dos integristas, engaja de agora em diante a Igreja em uma via de divisão.”** (destaque meu) Como se pode concluir, fica cada vez mais cristalina o ataque dos modernistas à autoridade do atual Papa já antecipando um possível cisma. A informação é preocupante e quem tem ouvidos para ouvir, ouça. Neste momento não há como esquecer da homilia de Sua Santidade após a sua escolha como timoneiro da Barca de São Pedro. É importante salientar o trecho em que pediu aos fiéis que rezassem para que ele não viesse a fugir das suas responsabilidades, “por receio, diante dos lobos”. Quem são esses lobos que causam tantos receios? O que eles são capazes de fazer contra o Sumo Pontífice? O certo é que Bento vem causando perplexidade nos modernistas de plantão e esses já estão com garras e dentes de fora, prontos para o ataque.

Em entrevista ao jornal La Reppublica de 27-01-2009, o teólogo herege, Hans Küng, entende que “os últimos acontecimentos são um sinal do contínuo enrijecimento do Vaticano, a contínua marcha para trás, a contínua seqüência de passo após passo para trás”.*** (destaque meu) Não é difícil deduzir que fazendo o passo para trás, cheguemos à missa tridentina, tão odiada pela heresia modernista, e que fora praticamente banida após o CVII e gradativamente readmitida pelo Papa nestes últimos dias. A conclusão é lógica, e subtilmente Roma vai refazendo o caminho ao altar supremo, de costas para os urros do povo, ou dos lobos?, e de frente para Deus, como sempre foi. Mesmo com sensíveis mudanças, com posicionamentos simbólicos a reação já é avassaladora e violenta. Entende-se a diplomacia cambaleante que o Papa exprime em relação ao Concílio. Quem tem olhos para ver, veja. O Concílio está sendo bombardeado a conta-gotas. Só uma mente encastelada em si mesmo e orgulhosa não percebe a história que estamos assistindo, suave como a rede de São Pedro, porém forte e resoluta. Seria insano o Papa criticar com veemência o Concílio. Ele o ataca diplomaticamente e o defende protocolarmente, utilizando a letra do Concílio para reconstruir o que fora perdido.

Por fim, rezemos pelo heróico e cambaleante Papa Bento XVI. As reações dos lobos já se fazem violentíssimas. Através do verdadeiro culto, sem máculas nem criatividades, é que Cristo vai reinar. A história indica o “passo para trás”, e sabemos que a Igreja é sempre nova. O passado é tão jovem como o futuro. Nesse momento de penumbras lembremos das palavras do Santo Padre: “O amor é mais forte que o ódio e que o egoísmo mesmo em nosso mundo contemporâneo dirigido pela ideologia materialista do consumo e do divertimento”. Que Nossa Senhora proteja o bispo vestido de branco nesse embate que ganha contornos cada vez mais dramáticos.

Viva o Papa Bento XVI! Salve D. Marcel Lefebvre e D. Mayer!

Antônio Manuel da S. Filho.
Recife-PE. Dia 29/01/2009

* http://www.acidigital.com/noticia.php?id=15157
** http://golias-editions.fr/spip.php?article2618
*** http://www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=igreja&artigo=hans-kung-contra-papa&lang=bra

terça-feira, 27 de janeiro de 2009