segunda-feira, 19 de novembro de 2007

A las 6 de la mañana

Um grito forte e resoluto cortava o ar soturno do México naqueles tristes anos de perseguição atroz: Viva Cristo Rey! Sem direito a julgamento fora condenado ao fuzil o Pe. José Augustín Pro. Sua face serena, sua expressão decisiva, seus olhos fixos no céu. A arma que carregava na algibeira era modesta, porém poderosa: um rosário. Palavras de devoção se elevavam de sua boca... "venha a nós o Vosso Reino e seja feita a Vossa vontade". Pareço ouvir daquele jesuíta as mesmas assertivas de Cyrano diante da proximidade da morte; “Não aqui! Sentado, não! Assim! Não me ampareis! Não quero! Venha! Quero esperá-la em pé, de rosário em punho!”. Morria Augustín Pro. Diante dele os algozes, os velhos algozes, os inúmeros algozes sempre prontos para perpetrar o assassínio contra os que testemunham a Fé verdadeira. O que era para ser uma demonstração de opróbrio público na espera que o mártir se desesperasse perante a morte, Augustín demonstra fortaleza diante do seu destino e caminha lentamente para o lugar da glória do martírio. Pede para rezar! Ajoelha-se e beija o crucifixo, estende os braços em cruz e diz: ”Dios mío, ten misericordia de ellos. Dios mío, bendícelos. Señor, tu sabes que soy inocente. Con todo mi corazón perdono a mis enemigos". Tiros secos e tristes, mais tiros. O corpo do mártir estende-se exangue no chão do México, do México de Nossa Senhora de Guadalupe. Antes de morrer porém, um grito forte, claro e resoluto cortara o céu soturno daqueles tristes anos de perseguição atroz: Viva Cristo Rey! O brado seria entoado por mais e mais homens; o governo de Elías Calles cortaria a língua dos futuros mártires para que eles não confessassem o amor a Nosso Senhor e a Nossa Mãe Guadalupana.

Foi assim que se iniciou no México uma epopéia de perseguição das mais intensas contra a Igreja, digna dos primeiros mártires da época dos césares, mas que fez a Fé daqueles católicos, quase sempre pessoas humildes, brilharem com intenso fulgor testemunhando a Religião verdadeira diante de Deus, dos homens e da história.

Se la Iglesia verdadeira

La mi vida me pidiera,

Yo diez mil le ofreciera

Por guardar la Fe entera!

Diez mil vidas yo las diera

Por la Iglesia e su bandera!


A conspiração que urdia na perseguição da Igreja se arrastava desde o século XIX, mas somente em 1926 que se culminaria em investidas mais acintosas. Sobe ao poder o maçom socialista Plutarco Calles e logo que pôde começou a executar um plano de ação tendente a destruir o catolicismo no México. No mesmo ano aprova a Reforma do Código Penal (lei Calles), expulsando os sacerdotes estrangeiros, penalizando com multas e prisões os que dêem ensino religioso ou estabeleçam escolas primárias, os que se vestiam como clérigo ou religioso, ou realizassem atos de culto fora dos templos. Em Guadalajara quem confessasse a Fé em Cristo Nosso Senhor perderia o emprego, e aconteceu de 389 funcionários perderem suas funções. As leis contra a Igreja foram em grande número... Logo mais, no dia 31 de julho de 1926 se suspendia o culto público na República do México. Eis as leis fraternas trazidas pela república... as leis da compreensão e da democracia. Se suspedia o culto público??!! Jamás! Calles não triunfará!!

Calles não triunfará! Logo se ouve às seis da manhã em Jalisco, em Guanajuata e Zatecas o grito dos camponeses, dos devotos e dos padres, das mulheres que rezavam os rosários, armas mais poderosas, e lutavam . Viva a coragem dos católicos que combatiam bravamente contra o laicismo infligido pelo assassino Calles que sempre dizia: só estamos impondo a lei. Mesmo sabendo da inferioridade numérica, eles lutavam; mesmo sabendo da inferioridade das armas, eles rezavam; mesmo sabendo da inexorabilidade da morte, eles cantavam:

El martes me fusilan

A las 6 de la mañana.

Por creer en Dios eterno

Y en la gran Guadalupana.

Me encontraron una estampa

De Jesús en el sombrero.

Por eso me sentenciaron

Porque yo soy un cristero.

Encanecidos combates singraram os solos mexicanos. Batalhas, demonstrações de Fé como a do jovem José Sanchez del Río de 13 anos que ao perceber que a morte cruenta se aproximava escreveu para sua mãezinha: “Minha mamãezinha. Fui apanhado e vão matar-me. Estou contente. A única coisa que me inquieta é que vais chorar. Não chores, nós nos encontraremos. José, morto por Cristo Rei”.

Es por eso me fusilan

El martes por la mañana

Mataran mi cuerpo débil

Pero nunca nunca mi alma


A história dos cristeros não é sabida por muitos. Não lembro de tê-la estudado nos cursinhos de história que fiz por aí. Poucos conhecem a história dos mexicanos que saiam de sombreiros e ponchos e retornavam milagrosamente de combates em que a superioridade do inimigo era atestada pelo número e pelas armas. Foi mais um capítulo nobre dos Atos dos Apóstolos, como já disseram, escrito nas terras americanas. Na terra de Nossa Senhora de Guadalupe. A cristiada, como ficara conhecido o levante, não se acabou no México. A luta dos cristeros é a mesma luta de todos os católicos em qualquer lugar do mundo e em qualquer tempo: render culto público a Deus! Apesar de render o ódio do mundo não devemos temer, pois Cristo disse: Se eles me perseguiram, perseguirão a vós também. E é uma grande honra ser odiado por quem odeia Nosso Senhor. Por isso, pueden matarme, pero no si acaba la creencia en Dios eterno. Nenhum crime ficará impune. Os sangues dos mártires clamam por vingança. Deus vingará, Deus fará justiça!

Meus inimigos voltam atrás,

tropeçam e somem à Tua presença,

pois defendeste minha causa e direito:

sentaste em Teu trono como justo juiz. (Sl, 9,4 e 5)

Dedico o texto a todos os meus amigos católicos, a todos meus verdadeiros amigos que rezam pelo triunfo da Santa Igreja, contra quem as nações se enraiveceram e os povos meditaram coisas vãs (Salmo 2,1). Viva Cristo Rey!


Por
Antônio Manuel da Silva Filho

Um comentário:

Raphael disse...

Belo Texto Toni !

Boa idéia essa de fazer o blog.