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terça-feira, 30 de setembro de 2008

Menos de mil e mal pagos



















Eram menos de mil e mal pagos
Os que acima ao centro pisaram,
As terras de um Novo Mundo amado,
Protegidos por ferro, fogo e cruz.

Nas escadarias jorrava sangue e descia,
Rolava mais um corpo de guerreiro que perdia
Seu coração ofertado ao sol
E sua vida contra noite dada.

Mas a noite não descansa,
Vinha sempre, e sempre escura,
Só por lua e estrelas respingadas
Iluminando tão maldita bravura.

Cem mil eram os grandes,
Os que ao sol adoravam.

Menos de mil e mal pagos
Os que acima ao centro pisaram.

Numerosos, mas dispares,
Os que um a um o coração perdiam.
Infelizes com os grandes ficaram,
E nessa luta, forças aos de corpo férreo juntaram.

Não foi de fogo a vitória,
Nem de ferro a defesa,
Bastou estratégia,
E o rancor de um povo massacrado.

Isso sem desprezar,
A bravura d’o mar cortar,
E não temer peleja sob olhar,
De tão doce Grand Guadalupana!


Por
Gustavo V. Andrade

sábado, 24 de maio de 2008

VOZ DE BRONZE

Rouca a voz da torre se esparge
E torna viva e alegre a mesma voz
Do frio rotundo corpo brônzeo forte lento
Que dança no ar qual palmas de outono
A dança das auroras e crepúsculos
Da cor de outono evelhecido e voz de céus
Suave como as nuvens em suas formas
E viva como os ventos e alegre como os homens
Do alto da garganta de pedra em cada torre
Tocando pontiaguda o céu sublime
Sonando do alto um a um após o outro
Em prece alegre e muito viva voz sem fim
A oração dos sinos aos centos de homens vivos
E homens findos filhos da voz dos séculos, enfim.

Por Geraldo Vasconcelos

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

PERFUME DO ORVALHO










E o tempo é consumido pelo tempo
como as distâncias submissas ao espaço
os caminhos consumidos pelo andar
as sandálias testemunham caminhadas.

As noites, as estrelas e as trilhas
todas ao mesmo tempo submissas
às sandálias perfumadas de orvalho
testemunhas derradeiras do caminho.

Andar.

E o Verbo andando andou além do tempo
as distâncias submissas às sandálias
testemunhas derradeiras do perfume
do orvalho consumido no caminho.

E a distância das noites foi de um raio
quando a estrela foi a trilha no espaço
da distância entre o perfume e o orvalho
quando o tempo consumia o próprio tempo.

As sandálias submissas consumidas
e a distância derradeira consumada
à luz da estrela trilha e submissa
ao Verbo de orvalho e perfume conjugados
quando o tempo não foi mais que testemunha
quando o espaço não foi mais que sua distância
o tempo foi a distância entre as noites
testemunhas do perfume do orvalho.

Por
Geraldo Vasconcelos
Recife-PE, 12.XII.06

domingo, 16 de dezembro de 2007

Confiteor

Behold me at Thy feet again, O Lord!
Humbly to kneel, -- how can I dare to pray,
Or thank Thee for this grace Thou dost accord?
I can but wonder that Thou dost not slay.
My weight of infamy doth press me down,
The load of guilt that I can bear no more;
Prostrate in bitter shame before Thy frown,
I can but murmur low: Confiteor!

Black is the record of the rebel soul
That openly contemns Thy law divine,
Proclaiming earthly joy its only goal
Throughout this life. But blacker still is mine;
For unto me the Tree of Life was shown,
And I have lived amid the fruits it bore;
The Treasure of Thy temple I have known
Thankless, indifferent, -- Confiteor!

In deepest shame bowed down before Thy Face,
The wretch to whom Thy mercy still allows
The gift of life and many a greater grace,
Recalls the treachery, the broken vows.
My presence doth Thy temple but defile,--
How shall the traitor knock upon Thy door?
Basely, unworthy, vilest of the vile;
Confiteor, O Lord, -- Confiteor!

B. O'B. C.



Source: The Ave Maria, August 26, 1905.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

O Romance da Pastora Linda

Por
António Feijó













A linda Pastora, guardando o seu gado,
Andava esquecida num alto montado.

E o Rei, que voltava, sombrio, da caça,
Com seus falcoeiros e galgos de raça,

Detem-se, pensando, de subito, ao vê-la,
Em ermo tão alto, que fôsse uma estrella.

— «Oh linda Pastora dos olhos castanhos,
Que passas a vida guardando rebanhos!

A tua belleza deslumbra os meus olhos,
Como uma tulípa no meio de abrolhos.

Teus labios parecem cerejas vermelhas,
E a pelle é mais fina que a lã das ovelhas.

Sobre o oiro das tranças, tuas faces tão puras
São duas papoilas em searas maduras.

Estrella ou Pastora, se queres ser minha,
Terás as riquezas que tem a Rainha!»

— «A flôr dos vallados é sempre modesta
E a humilde zagalla presume de honesta.»

— «Terás equipagens, palacios, castellos,
E joias a arderem nos fulvos cabellos;

Um throno de esmaltes em oiros massiços,
Lacaios, escravos, fidalgos submissos!...»

— «Ás vossas riquezas, perdidas nos montes,
Prefiro mirar-me no espelho das fontes;

As joias, que valem, se eu guardo o meu gado,
Com rubras papoilas a arder no toucado?...

De nada me servem fidalgos, escravos,
Pois tenho as abelhas e o mel dos meus favos.

Segui vosso rumo, que a tarde caminha;
Guardae as riquezas que são da Rainha».

— «Não rias, vaidosa, das minhas promessas,
Que a forca tem visto mais lindas cabeças...»

— «Talvez que mais lindas já visse pender,
Mas nunca tão firme nenhuma ha-de ver,

Que a Virgem Santissima, a Virgem clemente,
Ampara, sorrindo, quem morre innocente,

E os anjos, descendo do ceu a voar,
Á forca viriam minh'alma buscar!»

E a linda Pastora, que a ser ultrajada
A morte prefere,--vae ser enforcada!

Levaram-na, á força, das suas ovelhas,
Pendendo-lhe ás tranças papoilas vermelhas,

Com gritos de escarneo, no meio da turba...
Mas nada os seus olhos serenos perturba.

E toda inundada na luz que irradia,
Sorrindo, os estrados da forca subia...

Então, n'um relance, do azul transparente,
Surgindo mais alvas que a lua nascente,

Duas pombas que descem e voam a par,
Nos braços da forca vieram poisar...

E a linda Pastora dos olhos castanhos,
Tão longe da serra, cercada de estranhos,

Sem ter um gemido, sem ter um lamento,
Expira na forca... Mas n'esse momento,

No grande silencio que a morte causara,
Aos olhos de todos que attonitos viram
Tão grande prodigio, coragem tão rara,
Dos braços da forca--três pombas partiram!