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sábado, 21 de março de 2009

Coisas da Razão

Corrupção é uma palavra bem familiar na boca de qualquer brasileiro que use o mínimo da razão. Vem acompanhada de outro termo carregado de significados e adjetivos não tão gloriosos, político. Político, corrupção, Brasília, lavagem de divisas, tráfico de influência, ignorância, pirataria, pobreza; palavras que bem desenhadas sintetizam um pouco nosso país.

Ao andar pelo centro da cidade do Recife e em alguns bairros periféricos assistimos indiferentes e coniventes um amontoado de suportes que vendem produtos piratas. À vista da polícia, eles vendem; à vista da justiça eles vendem. É uma multidão de múltiplos produtos, que se vendem ao arrepio das leis. A ilegalidade estrita comprada e vendida sob o nosso consentimento.

A corrupção, prostituta íntima de Brasília, lança seus tentáculos em todo Brasil. Falta dinheiro para se investir em áreas essenciais para nosso desenvolvimento e sobram os desqualificados para o mercado de trabalho. Resultado, pobre, desqualificado e obrigado a trabalhar para não mendigar. Muitos enveredam pela via mais fácil, pirataria, ilegalidade, corrupção. E quem fornece a pirataria? Quem tem dinheiro para bancar o produto e quem tem arma para garantir a segurança do produto até o consumidor. Se a polícia ostensiva deveria coibir o roubo e o furto que ostensivamente poderemos ser vítimas, certamente gente “armada” ganha com tudo isso. A equação é simples e dinheiro extra é sempre bem vindo. Pega-se a massa desqualificada e sem princípios, como as maiorias das pessoas são e põem a vender produtos que vêm das máfias do mundo inteiro. A polícia tem as armas e os políticos têm o interesse da proteção e da perpetuação desse crime. Resultado é direto, dinheiro fácil e voto fácil e todo mundo que é envolvido ganha de alguma forma.

Estes sub-militares ganham com a mensalidade dos vendedores, quando não são empregados diretos, os agentes sociais são pagos pelos militares e aliciam os eleitores que garantem as vitórias eleitorais. Nunca é uma questão de ideologia, é uma questão de quem paga mais. E todo mundo é culpado e corrupto, do rico ao pobre. Eles se entendem muito bem, pois o espírito que os anima é o mesmo.

Coisas da razão é só parar e pensar. E todos entram na indústria do entretenimento regada a pornografia, violência e morte. E ainda surgem as pessoas que aos montes caem das nuvens e não entendem porque a sociedade está de cabeça para baixo.

Tudo isso é possível, pois vivem numa sociedade sem Deus, sem nobreza, sem espírito de sacrifício. Os maiores criminosos e piratas foram os que lançaram os princípios desse mundo que vive etsi Deuns non daretur (como se Deus não existisse). Mas o que era oculto sempre se revelará... Todo crime se revelará.

Por
Antônio Manuel

quinta-feira, 5 de março de 2009

O aborto e seus sofismas

Umas das medidas atuais para se conhecer a fidelidade de um prelado da Igreja à Ortodoxia tem sido o quão mal falam dele na imprensa. Nesse sentido Dom José Cardoso Sobrinho tem se mostrado irredutível às vontades e opiniões da mídia, mesmo quando a verdade é tão impunemente falsificada basta ver o recente caso da garota de 9 anos que foi levada a abortar. As notícias tem sido de que Dom José decidiu excomungar os responsáveis, como se fosse um mero desejo dele, as excomunhões em caso de aborto, no entanto, ocorrem “latae sententiae”, expressão latina que significa “sentença oculta”, tal sentença não depende de julgamento algum, é acarretada pelo ato em si, ou seja, não só nesse caso em particular, mas em todos os casos de aborto, aqueles que o praticarem conscientes das restrições incorrem automaticamente na sentença.
Para melhor ilustrar o debate sobre o aborto (não desse caso específico, mas como tema recorrente) trago um texto de Percival Puggina a tratar do assunto.
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O aborto e seus sofismas
Por Percival Puggina
Dezenas de debates e de artigos, ao longo de mais de duas décadas, me permitem assegurar algo talvez surpreendente, mas comprovadamente verdadeiro: os defensores do aborto não têm um único argumento válido. Tudo de que dispõem são motivos e sofismas.
Os abortistas alinham, por exemplo, situações que podem levar uma mulher a querer abortar (estupro, dificuldades financeiras, problemas familiares, traumas e por aí afora). No entanto, descrições de motivos não são argumentos. E estão muito longe de constituírem razões para sustentar a idéia de que o ato de abortar constitui direito natural da mulher. O fato de que praticamente todos os crimes sejam praticados com algum motivo mais ou menos grave não os descaracteriza como crimes em si mesmos. Os motivos servem, se tanto, como atenuantes do dolo ou da culpa.
Também os sofismas dos abortistas são incontáveis. Vestem sistematicamente a roupagem ilusória do raciocínio correto, concebido e organizado para induzir ao erro. É o que ocorre, por exemplo, quando dizem que o Brasil é um estado laico, e que, portanto, a posição religiosa contrária ao aborto não pode ser aceita. A afirmação inicial está correta - o Brasil é um Estado laico - mas a conclusão é absurda porque, se válida fosse, tampouco a tortura deveria ser proibida pelas mesmas razões (a Igreja é contra a tortura). É o que fazem, também, quando alegam que as mulheres ricas praticam aborto em clínicas luxuosas ao passo que as mulheres pobres, etc. etc. etc. Isso é verdadeiro, mas o aborto é proibido para ricos e pobres. Vale o mesmo para a afirmação de que a mulher é dona do próprio corpo (o que já meia verdade porque nenhum médico realizará procedimentos mutiladores), frase que em nada serve para justificar o desejo de dispor do corpo de outro ser humano, vivo e diferente do corpo da mãe. E vale, por fim, para o mantra de que nossa legislação “é hipócrita porque se praticam milhões de abortos no país”. Se tal argumento fosse aceitável, toda a legislação penal, os códigos de posturas e o código de trânsito deveriam ser revogados pela mesma razão.
A Constituição Federal está eivada de dispositivos que conferem ao Estado o dever de assegurar direitos individuais. No fundo, o que os abortistas pretendem é estabelecer que o aborto é direito da mulher e dever do Estado. E defendem essa tese sem o menor constrangimento! Não apenas apresentam motivos como se fossem razões, não apenas esgotam as artimanhas sofísticas, não apenas exibem como argumento a própria tese que pretendem demonstrar. Não, tudo isso é pouco perante a monstruosidade que realmente desejam como produto de todas essas mistificações: fazer com que os filhos das aventuras, das imprudências e dos desatinos sejam executados pelos carrascos do Estado. Ora vão criar vergonha!

quarta-feira, 4 de março de 2009

Estrangeiro na floresta

As densas gotas da chuva tropical pesam sobre as folhas das árvores e caem se juntando em poças na terra. O som das gotas de chuva é monótono. Monótono e grandioso. Elas caem sozinhas e isoladas, sem serem vistas por olhos humanos. Respingam nos galhos, nos troncos, nas flores e folhas, na terra, nas pedras, na própria lama, mas juntas fazem um só som. Um som monótono e grandioso.
Mas em meio à floresta há um estrangeiro, enrolado em panos delicados, e encharcados pela chuva. Na terra jaz o estrangeiro, com seus pequenos olhos fechados, e seus pequenos braços e pernas agitados. Ele gritava chorando, mas a chuva gritava mais alto e suas lágrimas eram nada perto das densas gotas. E ele gritava mostrando a boca faltando os dentes. Era um bebê o estrangeiro, e era estrangeiro, pois ali, sozinho, não pertencia. Fora entregue à própria sorte. E todos sabem que a sorte de um bebê entregue à própria sorte é uma só, e é a pior delas. Largado só, na selva; não há forças no infante para sequer saber como lutar pela própria vida. Eis a sorte do estrangeiro.
É estranho que tal cena nos cause o senso de injustiça no abandono da criança, mas não creiamos ser injusto que ela precise não ser abandonada; não nos passa à mente que seja injusta a fragilidade do bebê, mas apenas o abandono dele à sua própria fragilidade.
É triste ver o orgulho dos tempos, dos nossos tempos, em que se aceita à necessidade da nutrição da carne, do ensino da sobrevivência e do teste das forças do corpo, mas se crê na absoluta independência do homem de qualquer realidade externa que o venha formar espiritualmente. Não falo da crença em si, que pode ser variada e por vezes até bem próxima do ideal, mas da descrença na necessidade do ensino da realidade espiritual. Os ateus são em menor número, isso é fato, mas aqueles que dizem crer em Deus, em sua maioria, já não buscam por uma Verdade que os transcenda, mas apenas uma “verdade” que os satisfaça. Esses são como crianças chorando abandonadas na selva.

Situação hipotética: a criança consegue sobreviver, bebendo nos primeiros anos água da chuva e seiva das árvores, e comendo insetos, sem que seja preza de predador algum. Mas cresce fraco pela comida que não é sua própria, e não cresce para andar de pé. Faz-se todo homem, mas não vive como tal.
Ou se sua sorte for de grande acaso, é criado por macacos, tal qual Tarzan. Ou bebe leite das tetas de uma loba tal qual Rômulo e Remo. Anda como macaco, ou ainda quase como lobo, come o que come o macaco, e mal conseguiria caçar como caça um lobo, mas faria isso tudo ainda com a aparência de um homem.
Nas duas situações, no entanto, apesar de ter forma de homem, falta-lhe humanidade. E essa, se é própria do ensino de pais para filhos, essa se é tão vital para a vida da carne sem que nos questionemos que seja injusta, por que não haveria justiça na transmissão dos conhecimentos de sobrevivência espiritual?

sábado, 31 de janeiro de 2009

A chama do Papa


A recente decisão do Papa Bento XVI de retirar as excomunhões que pesavam sobre os quatro bispos da Fraternidade Sacerdotal São Pio X está causando um verdadeiro furor vulcânico no frio inverno romano. Aqui e acolá se assiste a amplos debates acerca do real significado deste histórico decreto que readmite na grei católica, também agora juridicamente, os quatro sacerdotes sagrados pelo então Arcebispo D. Lefebvre, co-assistido pelo não menos heróico bispo brasileiro D. Antônio Mayer. Como um Nero às avessas, desde o início do pontificado do Papa atual, Roma pega fogo por suas declarações e decisões, em destaque a ampla liberação da Missa Antiga, através do Motu Próprio Summorum Pontificum. Com uma sensível diferença: Nero fundamentou a destruição, pelo fogo, para modernizar a parte antiga da cidade. O que se viu foi o choro e ranger de dentes das pobres almas, e ainda os inocentes, os católicos, foram acusados de serem os responsáveis pelo incêndio criminoso. Parece que sempre se pretende modernizar em Roma quem sofre são os católicos. Por outro lado, o fogo que o Papa está causando é o que purifica e eleva as almas para o céu. É o fogo que ensina o caminho do paraíso e sempre aponta para o alto. O fogo que traz vida e não a morte.

Mas o assunto não é propriamente sobre fogo, mas sobre o decreto que retira as excomunhões dos quatro bispos, D. Fellay, D. Tissier, D. Williamson e D. Galarreta. Após esta decisão de reparar um ato do passado, os meios católicos e não católicos reagiram de plurívocas maneiras. Devido a uma opinião de D. Williamson, veiculada através de entrevista concedida a uma TV sueca em novembro do ano passado, sobre o morticínio de judeus durante o nazismo, a imprensa mundial, em sua maioria patentemente anticatólica, tomou as dores dos eternos judeus perseguidos e encetaram a acusação de que o Papa reabilitara bispo “negacionista”, induzindo a opinião pública a acreditar que o Vigário de Cristo fosse ocultamente um nazista, sem direito às eloqüentes e teatrais paradas militares que ficaram conhecidas universalmente. Sazonalmente é comum fazer a absurda acusação que o Papa foi nazista ou que governa a Igreja como um hitlerista de branco.

Por óbvio, da polêmica declaração do bispo, não se esperava nada diferente dessa reação desmesurada. Essa crítica veio a calhar muito bem para os que não são católicos e não estão muito preocupados com a posição do Papa e da Igreja, pois já superaram a limitação das visões religiosas e vivem seu agnosticismo superficial e festivo. A opinião veiculada pela mídia servirá para que reproduzam suas posições pessoais com mais um enfeite de crítica contra a Igreja: Este Papa é mesmo um truculento nazistóide, autocrático, fundamentalista e etc, etc e etc. Servirá também para que os protestantes fiquem mais protestantes, que os judeus não tão judeus permaneçam na mesma, enfim, a irresponsável e demasiada propagação dessa confusa entrevista, unida a opiniões insensatas, não trouxeram nem farão um bom serviço às almas. Mas respeitemos, todos têm direito à informação assegurado constitucionalmente. Brindemos, pois, as conquistas destes direitos em outra ocasião, o momento é por demais sério para massagearmos o espírito com algum vinho. Ah! Lembrei de um ditado romano, dos antigos romanos, “in vino veritas”, mas o que é a verdade? Pergunta o jornalista e o estudante sabido. Deixemos o vinho, o jornalista e o estudante sabido de vez, voltemos ao assunto.

O que mais chama a atenção, por outro lado, não é o foco gerado pelo bispo Williamson que já escreveu ao Vaticano pedindo desculpas sobre a entrevista, é o efeito dentro da Igreja e a emissão de entrevistas e artigos de sabidos e não sabidos que vicejam no redil católico. Percebem-se opiniões díspares e muitas vezes contraditórias. Se não, vejamos alguns que destaco. O L´OSSERVATORE ROMANO do dia 25 de janeiro de 2009, na pressa de ver conexão entre o espírito do Concílio Vaticano II e a decisão do Papa, em seu editorial diz que o Papa usou “do gesto de misericórdia que deve alentar aos membros da Fraternidade Sacerdotal São Pio X a acatar o Concílio Vaticano II (eles não estão obrigados a acatar o CVII) que após meio século de seu anúncio está vivo na Igreja".*(destaque meu) Ademais, o editorial ainda afirma que esse gesto de misericórdia estaria de acordo com a intenção dos predecessores do Papa Bento, assim como o bondoso João XXIII. Ora, e a decisão de excomungar os quatro sacerdotes na época e também os bispos consagrantes? Essa decisão, em 1988, estava em conformidade com o espírito do Concílio? A confusão do editorial é ridícula... Ou provocadamente desonesta.

Pelo caminho inverso o modernista site francês, Golias, anuncia que “colocando UM CISMA no coração da Igreja Católica, o Papa Bento XVI assumiu uma pesada responsabilidade: a de querer consertar um cisma integrista provocando um outro". A ousadia não pára por aí e ainda sentenciam, “esta decisão constitui um ponto sem retorno na confiança que alguns (quem são esses alguns?) ainda mantinham nos responsáveis (ou no RESPONSÁVEL?) da Igreja. Nesse sentido, Bento XVI, cedendo às pressões dos integristas, engaja de agora em diante a Igreja em uma via de divisão.”** (destaque meu) Como se pode concluir, fica cada vez mais cristalina o ataque dos modernistas à autoridade do atual Papa já antecipando um possível cisma. A informação é preocupante e quem tem ouvidos para ouvir, ouça. Neste momento não há como esquecer da homilia de Sua Santidade após a sua escolha como timoneiro da Barca de São Pedro. É importante salientar o trecho em que pediu aos fiéis que rezassem para que ele não viesse a fugir das suas responsabilidades, “por receio, diante dos lobos”. Quem são esses lobos que causam tantos receios? O que eles são capazes de fazer contra o Sumo Pontífice? O certo é que Bento vem causando perplexidade nos modernistas de plantão e esses já estão com garras e dentes de fora, prontos para o ataque.

Em entrevista ao jornal La Reppublica de 27-01-2009, o teólogo herege, Hans Küng, entende que “os últimos acontecimentos são um sinal do contínuo enrijecimento do Vaticano, a contínua marcha para trás, a contínua seqüência de passo após passo para trás”.*** (destaque meu) Não é difícil deduzir que fazendo o passo para trás, cheguemos à missa tridentina, tão odiada pela heresia modernista, e que fora praticamente banida após o CVII e gradativamente readmitida pelo Papa nestes últimos dias. A conclusão é lógica, e subtilmente Roma vai refazendo o caminho ao altar supremo, de costas para os urros do povo, ou dos lobos?, e de frente para Deus, como sempre foi. Mesmo com sensíveis mudanças, com posicionamentos simbólicos a reação já é avassaladora e violenta. Entende-se a diplomacia cambaleante que o Papa exprime em relação ao Concílio. Quem tem olhos para ver, veja. O Concílio está sendo bombardeado a conta-gotas. Só uma mente encastelada em si mesmo e orgulhosa não percebe a história que estamos assistindo, suave como a rede de São Pedro, porém forte e resoluta. Seria insano o Papa criticar com veemência o Concílio. Ele o ataca diplomaticamente e o defende protocolarmente, utilizando a letra do Concílio para reconstruir o que fora perdido.

Por fim, rezemos pelo heróico e cambaleante Papa Bento XVI. As reações dos lobos já se fazem violentíssimas. Através do verdadeiro culto, sem máculas nem criatividades, é que Cristo vai reinar. A história indica o “passo para trás”, e sabemos que a Igreja é sempre nova. O passado é tão jovem como o futuro. Nesse momento de penumbras lembremos das palavras do Santo Padre: “O amor é mais forte que o ódio e que o egoísmo mesmo em nosso mundo contemporâneo dirigido pela ideologia materialista do consumo e do divertimento”. Que Nossa Senhora proteja o bispo vestido de branco nesse embate que ganha contornos cada vez mais dramáticos.

Viva o Papa Bento XVI! Salve D. Marcel Lefebvre e D. Mayer!

Antônio Manuel da S. Filho.
Recife-PE. Dia 29/01/2009

* http://www.acidigital.com/noticia.php?id=15157
** http://golias-editions.fr/spip.php?article2618
*** http://www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=igreja&artigo=hans-kung-contra-papa&lang=bra

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Casa de Manolete

Para ler enquanto se faz silêncio aqui:

http://casademanolete.blogspot.com

Olé!

domingo, 28 de setembro de 2008

O Pecado; Machado de Assis; a política e o interior

Não há nada mais triste que uma alma que vive apartada de Deus. Debalde tenta sorrir e nisto apenas mostra os dentes amarelecidos por marcas indeléveis donde só a graça divina pode limpar e fazer o purpúreo tornar-se branco como a neve, como preconizava o profeta em tempos imemoriais. Não há nada mais pavoroso que uma cidade repleta de almas que tateiam na escuridão de vícios dos mais diversos matizes. A expressão dos indivíduos ganha um contorno misteriosamente estranho. O olhar se torna vidrado. Os movimentos denunciam que algo imperceptível faz comunhão com cada ato e pensamento que se manifesta. Em geral os homens ficam flácidos e seu olhar só fala arrogância. A situação é pavorosa e não há precedentes a que ponto se decaiu a natureza humana. Parece que nos esquecemos de nós mesmos e a virtude se tornou algo tão banal, tão desprezível que é cansativo só de pensar.

Machado de Assis é caracterizado pelo acentuado cepticismo em relação ao homem. Seu pessimismo talvez fosse além de Pirro e nesses cem anos de sua morte não há como não lembrar de alguns de seus livros nesses tempos modernos. Sempre ouvia de uma tia que é espírita e bem apegada a vaidades que estamos evoluindo. Ó evolução, parece que não chegaste a mim nem a meus pares do mundo moderno. Balela de espírita! Essa conversa de evolução espiritual é um dos maiores conformismo em relação à moral que se ensina descaradamente. Machado, que era espírita, cansou de falar da decadência moral do homem e nada propunha. Parece que o homem é podre até chegar o momento do “plus quântico”, quando teremos os tempos melhores. Esse conformismo budista é tão assassino quanto a atividade danosa dos maus.

Alguns homens se apercebem do valor moral. A política se torna um instrumento dos mais valiosos para se implementar uma forma de congregar os valores de um povo e traduzir os anseios populares através de trabalhos que enriqueçam a sociedade mediante a promoção de valores minimante éticos. É interessante como surgem abnegados aptos a solucionarem os problemas de uma cidade. A política deveria ser um fardo. Os governantes não deveriam perceber vencimentos. Os agentes políticos deveriam agir de maneira a gerir a administração pública só sendo custeado seus gastos básicos. Talvez, dessa forma, possamos antever não uma a parcimoniosa evolução, mas um progresso pelo menos na forma de governar. Infelizmente o sistema atual de representação é uma fabriqueta de gerar canalhas e patifes que se penduram na máquina pública. É um absurdo e causa revolta assistirmos de forma descarada como os assessores, secretários e puxa-sacos vêem a administração como catapulta de suas realizações personalíssimas enquanto a maioria da população fica à míngua.

No interior há graves pecados (sic); sorrisos amarelos; expressões faciais diabólicas. No período eleitoral músicas agonizam a cidade com palavras ofensivas; palavras desrespeitosas e de uma duvidosa qualidade. Perdemos totalmente o senso do ridículo. Mulheres se prostituem e a bacante é regada a álcool e drogas. Enquanto isso a bandeira na gávea tripudia e lançamos ao céu este borrão. Não temos machados pra cortamos esse mal pela raiz; nem Machado para rirmos da situação. A situação não tem graça e não sei até onde vai chegar. Ó Deus, tende piedade, nós não sabemos o que fazemos!
Antônio Manuel da Silva Filho
Catende, 27/09/2008

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Da argila à imagem


Entronizada inicialmente no séc.XIX como padroeira da Facvldade de Direito do Recife por alunos e professores, N.Sra. do Bom Conselho, retorna hoje a seu lugar de direito, graças a disposição do Círculo Católico e a ação do Movimento Centenarista.

Apresento agora um pequeno texto em comemoração ao fato.

Da argila à imagem

“Então Javé Deus, modelou o homem com a argila do solo, soprou-lhe nas narinas um sopro de vida, e o homem tornou-se um ser vivente”. (Gênesis 2, 7)

Da terra feita a vida do homem, não tardou pra que o mesmo, saído da argila, mergulhasse na lama de seus pecados. Assim como levanta poeira a terra batida, nebula o existir o torpor de nosso estado, a natureza decaída. Amamos a sujeira que cobre a Terra como porcos que não erguem olhos ao firmamento, que firme sempre há de durar, apesar da imundice que abaixo assola e nos envolve. Do pó viemos e ao pó não tardará nosso regresso, sempre a mais pisar no lamaçal, a nos sujar e nos sujar.

Na pedra cresce o musgo e da chuva as videiras fazem firmes raízes, dando alimento ao homem. Da terra nasce o trigo, a papoula e a sequóia, na terra faz a toca o tatu e no galho o ninho o João-de-barro. Da terra fez-se a vida, que da terra hoje ainda mesmo se tira. Da terra tira o homem à arte. Seja barro, gesso ou pedra, ou quem sabe ainda árvore, ganha forma a beleza trabalhada, esculpida lasca a lasca. Um pensar feito em matéria. Ensinando-nos o Deus na Terra usamos o que de belo se fazia para louvar a Deus então. Fez-nos Ele a Sua imagem e semelhança, fazemos nós pedaço de contemplação.

Os ignorantes às imagens querem soprar nas narinas e dar-lhes também vida; os humildes, ao contrário, da imagem aprendem, eles mesmos, a ter vida, e vivem então a dar frutos.

Medianeira primeira, flor-de-lis esplendorosa, a mais bela já nascida desde a terra, é a mais bela ainda que apenas feita em pedra. Da sua imagem só zombam insensatos, homens ingratos, de fato, e perante seu olhar não há quem se diga sério sem se envergonhar de suas próprias manchas, e ver naquela pedra refletida a sapiência eterna, espelho de Justiça, um clarão de misericórdia.

O Bom Conselho é em verdade maternal – maternos os olhos a vigiar – e filial é o adorar a Deus por meio dela, rainha bela deste lar. Que da terra, sempre ela, a máxima beleza alcançada seja polida, pra dar vida aos que mesmo na lama almejam ao sol. E como imagem que somos nós, saibamos também aprender pela imagem a ter vida. E ainda apenas simples imagens, peçamos então que rogue por nós a Santa Mãe do Bom Conselho.

Mater Boni Consilii, ora pro nobis!

quarta-feira, 23 de abril de 2008

O passar do tempo

Pode ser neológico o tiquetaquear do relógio, mas do tempo o passar foi desde o princípio assim, sem volta. E a cada acumular de segundos e somar de minutos segue o mundo o seu existir. O agravar do tempo, então, parece só nos restar patente com os vincos da testa e o pesar das dores nas juntas, mesmo que quando moços não tenhamos ouvido de alguém de face marcada e dobras doídas que “o tempo voa”. Quando movido na euforia da vida ainda pouca é não raro formar-se na cabeça de alguém a indistinção entre aproveitar a vida e vivê-la como espetáculo hedonista. E gastas as horas e gastos os dias, reclamam muitos do urgir do tempo, não percebendo estes que em verdade antes do tempo urge a Sabedoria.

Gasta-se o tempo com nada ou pouca coisa, achando ser isso tudo que há. Mas que pressa há em gastar?
O tempo é só agora; uma sucessão de agoras. E sendo então agora, o tempo não passa, quem passa somos nós nesse mundo passageiro.
Por
Gustavo V. de Andrade

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

St.Agostinho de Hipona

Júpiter derrotado deu vazão aos godos e os pagãos amargurados culpavam àqueles que por Roma entendiam o Primado. Era o fim do império que em vãs lucubrações haveria de durar eternamente. Filho de Mônica e Patrício nasceria aquele que por virtude e sabedoria triunfaria em meio a Patrística. Nascia como todos, com nefasta mancha. Se do vizinho roubava pêra era para saciar a ânsia de pelo mal, bem viver, e não bastando a natureza decaída fez da queda uma “amiga”.

Foi na queda que desceu ao abismo. Da fruta quis o doce, e do doce o que restou? Gosto amargo do torpor. Pequeno verme que se fez a mastigar as entranhas da terra. Estranhas carnes que provou, pareciam exalar suave fragrância, um adorável odor. Mas apenas pareciam, pois no fundo escondiam terrível armadilha: havia sem saber provado da morte, pensando bem viver.

E de verme se fez homem. Tendo seguido exemplo de sua mãe Mônica, sua Mãe maior o resgatou. De Numídia a Cartago, de Cartago a Milão, em nenhum outro lugar, porém, fez-se tão bom como em Hipona. A Deus e ao mundo fez ouvir os horrores do tempo de verme e sobre a vida de homem tampouco se calou, revelando as belezas que encontrara.

Já havia visto no mal uma verdade e vendo após o bem que não percebia, humilhou-se e em verdade agora via. À Verdade obedecia, submisso que ficava, quando de jovem anjo escutava: “Mais fácil colocar todas águas em tão pequeno buraco, que tua mente conhecer os segredos do infinito”.

Dos bons frutos que Platão semeou colheu todos, limpando a sujeira que guardavam quando por terra caíram, após ver também Ambrósio com os bons frutos que colhera. “O homem não tem razão para filosofar, exceto para atingir a felicidade” assim dizia, e de outra forma não foi, pois feliz ele estava quando a cidade dos homens deixou para adentrar a cidade que a Deus pertencia.

Por

Gustavo V. de Andrade

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Da Perfeição

Digo sempre tentar ser, falo dos que não são, esquecendo não ser eu também, e no meu erro tento, por vezes, pensar ser. Eis minha relação com a perfeição, imperfeita como d’outra forma não caberia, pois imperfeito sou mesmo sem querer, e mesmo não querendo, para minha desgraça, sigo amando a imperfeição. Ignomínia singular de ser humano; é dos tempos mais remotos nossa mais triste tradição.

Perfeito do latim, por completo feito, é quase bem completo em nos mostrar o entendimento, pois que se buscamos algo estamos longe de estarmos inteiros. Se sendo somos todos feitos, o que mais nos falta seria sermos por inteiro, e, assim sendo, do que é completo queremos nos fazer de espelhos. Já que somos imperfeitos, ainda que espelhos, somos incompletos, e o que é inteiro mostramos refletido apenas parte. Sabendo, no entanto, que a Perfeição é maior que o perfeito, mesmo se fossemos inteiros, do que é de fato completo não mostraríamos sequer meio. Ah, mas se fossemos completos, a parte que nos é todo seria por certo pedaço do infinito e nosso mais rico tesouro.

Disse desde a Grécia o Estagirita: “Nós nos transformamos naquilo que praticamos com freqüência. A perfeição, portanto, não é um ato isolado, é um hábito”. Logo, sendo sempre aos poucos, faz-se o alívio do sufoco de não ver-me no fim sendo perfeito. E com a luta de cada dia me proponho a vencer meus vazios dizeres, dou graças a quem é Mais que Perfeito, e me contento em ser simples espelho. Perfeitíssimo, sede meu alento.

Por
Gustavo V. de Andrade.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

A saudade e a dor da morte e da partida

Para os que sabem sofrer por amor a Deus a saudade que nos ofertam os que não perto estão é grande presente e a serenidade dos que a sentem é gratidão. A perda é sempre um tanto morte; é costume dizer que os que nos cercam “fazem parte de nossas vidas”, da vida, seja toda ou seja parte, perder é sempre morte, e então que se um amado parte morremos um pouco nós. A dor da perda é egoísta e por isso muito humana. Não choramos na verdade pelo outro, mas pelo outro não estar conosco. As lágrimas nos pesam e vencem nossas consciências, nosso raso entendimento dos desígnios divinos. Queremos o outro que faz parte de nossa vida, queremos o outro que é nossa parte. Melhor seria compreendermos os caminhos que seguimos em sua completude e não precisarmos sofrer (alto estado seria esse de perfeição), mas o natural é que sejamos fracos, a saudade, então, que nos aperta o coração, essa nossa pequena morte, soframos pela Vida, por Nosso Redentor.

Essa mensagem dedico a meus tios e meu avô.
Réquiem aetérnam dona eis, Dómine: et lux perpétua lúceat eis.

Por
Gustavo V. de Andrade

domingo, 30 de dezembro de 2007

É triste, mas é verdade.

A mediocridade da unanimidade é geral. As pessoas na falta do que pensar, ou talvez na simples falta de personalidade, repetem àqueles que parecem pensar, ou ter personalidade. E assim se manifesta o hodierno pensamento politicamente-correto, boca a boca, mente a mente, claro, sempre unânimes em apontar dedos simplesmente porque alguém no começo da fila desse enorme telefone sem-fio público disse para ser assim.

Está se levantando uma ditadura intelectual não declarada, aos olhos de todos. Para ser moralista é preciso ser falso, para ser contra o aborto é preciso ser obscurantista, não votar em um determinado candidato é impedir a “democracia”, afinal de contas se ele quer trabalhar, deixa o homem trabalhar, oras! O incrível é ver que as pessoas mais simples e humildes são as que parecem mais imunes a tal epidemia, mas não estão a salvos, pois esse tipo de peste é de se alastrar rápido. Essa doença é acadêmica. É de magistrados, bacharéis e doutores. É de jornalistas, não de jornaleiros.

Uma das verdades declaradas desses enfermos, e provavelmente a mais esdrúxula, é de que não existe verdade. Valha-me Santo Deus! Tudo é então mentira? O que fiz em minha vida até hoje sem saber disso? É verdade então que existe mentira? E como se faz pra saber que algo é mentira? É... De fato a vida é bem mais fácil sem a verdade, sendo assim é verdade o que eu quero, toda mentira é verdade. Mas me ensinaram que a verdade não existe e como fica a mentira verdadeira?

Cada um constrói sua verdade. Que bonito isso! E eu que pensava mal das pessoas que se acham donas da verdade. Quem diria, o comunismo chegou até na metafísica. Verdade pra todo mundo! Viva!

E eu que aprendi que o céu era azul... Só pode ser opressão das elites! Mas se é mentira que o céu é azul é verdade que o céu não é azul? Isso é meio confuso, mas se me ensinaram assim é porque deve ser verdade, né? Ou será que é mentira?

Há quem até date a verdade, pessoas letradas, claro. A verdade é uma construção da história, o que se achava verdade, hoje não mais se acha. E eu pensava que se algo não era verdade é porque era mentira. Era tudo verdade, só que ficou fora de moda, a verdade agora é outra.

Será que é mentira que eu existo? Que loucura! Se eu não existo estou gastando meu tempo à toa escrevendo esse texto, que ninguém vai ler, nesse blog que não sei nem ao certo se é verdade que existe...


Por
Gustavo V. de Andrade

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

A desocupação do ocupar

“Todo poder necessita de um inimigo e de uma ameaça, pois sua mais segura justificação é a proteção que ele oferece contra tal perigo”.

A citação pela qual começo o texto foi proferida pelo historiador francês Jerôme Baschet, em entrevista no ano passado (2006) ao Instituto Humanitas Unisinos. O extrato é em verdade uma análise do posicionamento dos EE.UU. perante os islamitas, tratando da necessidade que surgiu à nação americana de direcionar suas atenções a um novo “bode-expiatório” após o fim da Guerra Fria, e da aniquilação de sua antagonista, a URSS. Acredito, no entanto, que é um diagnóstico de uso universal e que pode aplicar-se mesmo ao canhestro modus operandi dos grupos políticos universitários da atualidade.

Sem sombra de dúvidas uma das maiores causas da atual situação do panorama político brasileiro, como um todo, foi a existência e extinção da ditadura militar. Lula deve sua presidência à ditadura. A suposta identidade direitista dos militares parece ter vacinado o Brasil, ou pelo menos a classe “pensante” do Brasil, contra todas as posições políticas que de alguma forma se alinhem ou se aproximem ao pensamento de direita, seja uma defesa da moral ou da economia liberal. Enquanto figura política, Lula nasceu nos movimentos sindicalistas que ousavam levantar suas vozes contra a ditadura, seu discurso era inegavelmente mais inflamado do que hoje, nunca deixando de ser, no entanto, um esquerdista, conseguiu ascender ao poder. Ele não caiu nas graças do povo por pregar o socialismo, o povo brasileiro é ainda não muito amigado desse tipo de discurso. Os que nele votaram foi por identificação com sua imagem e não com suas idéias, apesar de que as idéias dele serviram para comprar a simpatia dos “pensantes” e dos ditos formadores de opinião.

Assim como Dom Quixote via nos moinhos, gigantes, Lula diz ver na farinha de seu mesmo saco, a elite predadora. Assim como nosso presidente precisou que o Brasil fosse vacinado contra o “direitismo”, os movimentos estudantis parecem apenas existir com auxílio dessa mesmíssima premissa. Em defesa da democracia invadem prédios públicos, como se 1964 estivesse novamente começando. Nas suas ações ecoa o grito de “Abaixo a ditadura!”.

Ter permanecido durante tanto tempo como centro de tantas articulações políticas, fez o meio acadêmico cansar-se dessa lengalenga. Não percebem os jovens em suas camisas de Che Guevara o ridículo que há muito se tornou essa sua inclinação revolucionária? Dizem lutar contra a opressão e as posturas antidemocráticas, no entanto, oprimido sinto-me eu representado por esses grupos que em nada me relaciono.

Os grupos estudantis vivem por conta dos fantasmas ditatoriais, enxotam os fantasmas para cima dos que deles discordam, aqueles que por eles são “insultados” de reacionários e conservadores, e mesmo fascistas. São eles, entretanto, que parecem esforçar-se em manter vivos esses fantasmas. Há nessa lógica um pequeno problema, todos os que restam do lado de fora desses movimentos parecem não possuir a mesma “perspicácia”, que os nobres politizados e esclarecidos dos D.A.s da vida, em enxergar esses fantasmas. Essas alucinações frutos de algum tipo de iniciação, em verdade, fazem parte deles mesmos, são eles os infestos, os possuídos pelos fantasmas ditatoriais. “Abaixo a ditadura!”, faz-se necessário que eles mesmos escutem seus gritos, pela voz de outros, dos “alienados”. Abaixo a ditadura!

Possuídos então, pelos assombros da ditadura, alguns jovens estudantes parecem ter visto na contestação ao REUNI a necessidade de ocupar a reitoria da Universidade Federal de Pernambuco. Com direito até a slogan de campanha: “Ocupe a reitoria dentro de você!”. Singelo, não é mesmo? Entre uma discussão de assembléia e outra, encontravam tempo ainda para oficinas de tapioca e artesanato, assistir filmes do Godard, feijoadas e a apoteótica festa da ocupação. Isso claro sempre visando combater o autoritarismo do reitor, que tardou, receoso que ficou, em dar aos estudantes o que eles esperavam: o uso da força na desocupação. Parece haver um desejo inato de sofrimento aos marxistas, de algo que possa ser identificado como opressão. É certo que o Paraíso para eles deve cumprir-se aqui na Terra, mas precisam desse pequeno martírio para se justificar. Estudantes que são da, ainda considerada, melhor universidade pernambucana, ocupando gratuitamente um espaço público, onde realizam abertamente festas, anunciadas em seu blog, precisam ser vitimizados para se identificarem com seu próprio discurso, para fazerem jus ao que pregam. Precisam dizer que são excluídos, nem que seja da reitoria, mas precisam ser excluídos.

E assim permanece a mobilização estudantil, relegada à inércia histórica, presa nos grilhões do status quo tupiniquim. Faço meu o clamor de muitos: menos política e mais estudo! Não desejo fazer aqui apologia ao REUNI, de forma alguma, reconheço as falhas lógicas da perpetração desse projeto, mas as respostas dadas parecem por demais desproporcionadas às causas. Pelos clamores democráticos do grupo representativo dos estudantes, foram interrompidas muitas das práticas necessárias ao bom funcionamento da Universidade, até mesmo bolsistas viram-se sem seu auxílio de custo mensal. Talvez enquanto ingeriam a feijoada os ocupantes, e se atormentavam os bolsistas, tudo o que desejavam os arquitetos dessa mobilização toda fosse realmente a melhoria dos cursos, disso não duvido, mas o princípio de que os fins, de alguma forma, justificam os meios foi antes deles utilizado por ditadores sanguinários. É... os estudantes fazem a Universidade, enquanto Hitler faz escola.

A principal bandeira levantada desse “auê” todo foi uma suposta falta de consulta em relação ao corpo discente na implementação do REUNI. É triste, entretanto, constatar que o próprio corpo discente, dotado de algum consentimento messiânico, usa do querer de alguns para fazer valer seus ideais em nome de todos. A política é um assunto extremamente instigante, a maneira infantil como é tratada, porém, nos meios acadêmicos, torna-a insuportável. Se o movimento estudantil se esforçasse em buscar novos meios de articulação garanto que a perspectiva de uma juventude sadiamente politizada seria outra, e nos livraríamos desse marasmo ditatorial que nos empurra a um sentimento apolítico. Por isso se não ocorre mudança interna no modo de agir dos movimentos estudantis, se a política é vista nessa única perspectiva, não temo em dizer que não a desejo. Diante dela posso apenas dizer: Menos política e mais estudo!

P.S: Democraticamente disponibilizo aqui o endereço eletrônico do blog da ocupação, para que não venham a contestar nenhum tipo de direito de resposta:
http://ocupaufpe.blogspot.com

Por

Gustavo V. de Andrade

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

A “Cantiga de Guarvaya” ou “Cantiga Ribeirinha”

Acorriam estrangeiros aos portos de Portugal, acolhia-os o Rei no intuito de aumentar a população, fazer fértil aquelas terras após os findos tempos das trevas bárbaras. Conhecido tal senhor, combatente dos mouros, ficou por Povoador. Dom Sancho I, o Povoador, segundo a subir no trono lusitano, quarto filho do monarca Afonso Henriques. Batizado fora de Martinho em honra ao santo do dia de seu nascimento, mas tendo seu irmão mais velho falecido recebeu alcunha um tanto mais monárquica, chamado ficou Sancho Afonso.

À infanta de Aragão e Catalunha, Dulce de Barcelona, teve por esposa, e com ela uma prole de onze filhos e filhas. Desses valem menção três de suas filhas, Dona Mafalda, Dona Sancha e Dona Teresa que se tornaram freiras, e por suas vidas fizeram-se beatas. O Rei não era, no entanto, tão santo, teve outros tantos filhos bastardos. Seis desses filhos ilegítimos teve com Dona Maria Pais Ribeiro, conhecida como a “Ribeirinha”.

O texto que agora apresento, escrito pelo poeta trovador Paio Soares de Taveirós, é dito ter por inspiração a Ribeirinha, e por muito foi considerado o texto literário mais antigo que se tem registro em língua portuguesa. Muitos dizem datar de 1189 ou 1198, mas parece já provar-se ter sido escrito apenas no início do século XIII, não sendo mais o mais antigo. Sendo d’antes ou depois, ter por tanto tempo sido, pois, o texto mais antigo de nossa língua-mãe, trago-o por sua importância histórica de hoje ou de outrora. Devido ao arcaísmo da escrita do chamado galego-português, trago também notas a desvendar o dito. Eis, por fim, a “Cantiga de Guarvaya” ou “Cantiga Ribeirinha”:


"No mundo non me sei parelha,

mentre me for' como me uay

ca ia moiro por uos e ay!

mha senhor branca e uermelha,

queredes que uos retraya

quando uos eu ui en saya!

Mao dia me leuantei,

que uos enton non ui fea!

E, mha senhor, des aquel di' ay!

me foi a mi muyn mal,

e uos, filha de don Paay

Moniz, e ben uus semelha

d' auer eu por uos guaruaya

pois eu, mha senhor, d' alfaya

nunca de uos ouue nem ei

ualia d' üa correa."

(por limitações técnicas é posto ü ao invés de u com til)


[VOCABULÁRIO: parelha = semelhante, igual; mentre = enquanto, entrementes; ca = pois, porque; moiro = morro; senhor = senhor(a); queredes = quereis; retraya = retrate, evoque; que uos enton non ui fea = que então vos vi linda (por litote); mi = mim; semelha = parece; guaruaya = manto escarlate próprio dos reis.]


Por

Gustavo V. de Andrade

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

A las 6 de la mañana

Um grito forte e resoluto cortava o ar soturno do México naqueles tristes anos de perseguição atroz: Viva Cristo Rey! Sem direito a julgamento fora condenado ao fuzil o Pe. José Augustín Pro. Sua face serena, sua expressão decisiva, seus olhos fixos no céu. A arma que carregava na algibeira era modesta, porém poderosa: um rosário. Palavras de devoção se elevavam de sua boca... "venha a nós o Vosso Reino e seja feita a Vossa vontade". Pareço ouvir daquele jesuíta as mesmas assertivas de Cyrano diante da proximidade da morte; “Não aqui! Sentado, não! Assim! Não me ampareis! Não quero! Venha! Quero esperá-la em pé, de rosário em punho!”. Morria Augustín Pro. Diante dele os algozes, os velhos algozes, os inúmeros algozes sempre prontos para perpetrar o assassínio contra os que testemunham a Fé verdadeira. O que era para ser uma demonstração de opróbrio público na espera que o mártir se desesperasse perante a morte, Augustín demonstra fortaleza diante do seu destino e caminha lentamente para o lugar da glória do martírio. Pede para rezar! Ajoelha-se e beija o crucifixo, estende os braços em cruz e diz: ”Dios mío, ten misericordia de ellos. Dios mío, bendícelos. Señor, tu sabes que soy inocente. Con todo mi corazón perdono a mis enemigos". Tiros secos e tristes, mais tiros. O corpo do mártir estende-se exangue no chão do México, do México de Nossa Senhora de Guadalupe. Antes de morrer porém, um grito forte, claro e resoluto cortara o céu soturno daqueles tristes anos de perseguição atroz: Viva Cristo Rey! O brado seria entoado por mais e mais homens; o governo de Elías Calles cortaria a língua dos futuros mártires para que eles não confessassem o amor a Nosso Senhor e a Nossa Mãe Guadalupana.

Foi assim que se iniciou no México uma epopéia de perseguição das mais intensas contra a Igreja, digna dos primeiros mártires da época dos césares, mas que fez a Fé daqueles católicos, quase sempre pessoas humildes, brilharem com intenso fulgor testemunhando a Religião verdadeira diante de Deus, dos homens e da história.

Se la Iglesia verdadeira

La mi vida me pidiera,

Yo diez mil le ofreciera

Por guardar la Fe entera!

Diez mil vidas yo las diera

Por la Iglesia e su bandera!


A conspiração que urdia na perseguição da Igreja se arrastava desde o século XIX, mas somente em 1926 que se culminaria em investidas mais acintosas. Sobe ao poder o maçom socialista Plutarco Calles e logo que pôde começou a executar um plano de ação tendente a destruir o catolicismo no México. No mesmo ano aprova a Reforma do Código Penal (lei Calles), expulsando os sacerdotes estrangeiros, penalizando com multas e prisões os que dêem ensino religioso ou estabeleçam escolas primárias, os que se vestiam como clérigo ou religioso, ou realizassem atos de culto fora dos templos. Em Guadalajara quem confessasse a Fé em Cristo Nosso Senhor perderia o emprego, e aconteceu de 389 funcionários perderem suas funções. As leis contra a Igreja foram em grande número... Logo mais, no dia 31 de julho de 1926 se suspendia o culto público na República do México. Eis as leis fraternas trazidas pela república... as leis da compreensão e da democracia. Se suspedia o culto público??!! Jamás! Calles não triunfará!!

Calles não triunfará! Logo se ouve às seis da manhã em Jalisco, em Guanajuata e Zatecas o grito dos camponeses, dos devotos e dos padres, das mulheres que rezavam os rosários, armas mais poderosas, e lutavam . Viva a coragem dos católicos que combatiam bravamente contra o laicismo infligido pelo assassino Calles que sempre dizia: só estamos impondo a lei. Mesmo sabendo da inferioridade numérica, eles lutavam; mesmo sabendo da inferioridade das armas, eles rezavam; mesmo sabendo da inexorabilidade da morte, eles cantavam:

El martes me fusilan

A las 6 de la mañana.

Por creer en Dios eterno

Y en la gran Guadalupana.

Me encontraron una estampa

De Jesús en el sombrero.

Por eso me sentenciaron

Porque yo soy un cristero.

Encanecidos combates singraram os solos mexicanos. Batalhas, demonstrações de Fé como a do jovem José Sanchez del Río de 13 anos que ao perceber que a morte cruenta se aproximava escreveu para sua mãezinha: “Minha mamãezinha. Fui apanhado e vão matar-me. Estou contente. A única coisa que me inquieta é que vais chorar. Não chores, nós nos encontraremos. José, morto por Cristo Rei”.

Es por eso me fusilan

El martes por la mañana

Mataran mi cuerpo débil

Pero nunca nunca mi alma


A história dos cristeros não é sabida por muitos. Não lembro de tê-la estudado nos cursinhos de história que fiz por aí. Poucos conhecem a história dos mexicanos que saiam de sombreiros e ponchos e retornavam milagrosamente de combates em que a superioridade do inimigo era atestada pelo número e pelas armas. Foi mais um capítulo nobre dos Atos dos Apóstolos, como já disseram, escrito nas terras americanas. Na terra de Nossa Senhora de Guadalupe. A cristiada, como ficara conhecido o levante, não se acabou no México. A luta dos cristeros é a mesma luta de todos os católicos em qualquer lugar do mundo e em qualquer tempo: render culto público a Deus! Apesar de render o ódio do mundo não devemos temer, pois Cristo disse: Se eles me perseguiram, perseguirão a vós também. E é uma grande honra ser odiado por quem odeia Nosso Senhor. Por isso, pueden matarme, pero no si acaba la creencia en Dios eterno. Nenhum crime ficará impune. Os sangues dos mártires clamam por vingança. Deus vingará, Deus fará justiça!

Meus inimigos voltam atrás,

tropeçam e somem à Tua presença,

pois defendeste minha causa e direito:

sentaste em Teu trono como justo juiz. (Sl, 9,4 e 5)

Dedico o texto a todos os meus amigos católicos, a todos meus verdadeiros amigos que rezam pelo triunfo da Santa Igreja, contra quem as nações se enraiveceram e os povos meditaram coisas vãs (Salmo 2,1). Viva Cristo Rey!


Por
Antônio Manuel da Silva Filho

O Estado Religioso


No campo das idéias a contradição é uma figura tenebrosa, uma enfermidade. Contradizer-se é, não raro, motivo suficiente para a ridicularização do pronunciante e funciona apenas para o seu descrédito. Antes de desejarmos não nos contradizermos com medo das opiniões alheias, o fazemos pelo bem da sustentação de nossas idéias. Exigimos de nós mesmos um encadeamento lógico das mesmas, pelo bem de nossa própria saúde mental.

Visando a não contradição nossos pensamentos acomodam-se em nossas cabeças, por vezes a grande custo, de modo que haja espaço para todos e que fiquem perfeitamente alojados. Mesmo as mais excêntricas das idéias não podem conflitar-se pelo bem de seu defensor, posto que é difícil respeitar às idéias de alguém que não respeita à própria consciência. É comum que a maturidade nos sirva para a coesão das idéias, a proximidade que elas passam a apresentar, tornam-nas polidas e espelho umas para as outras. Os pensamentos passam a ser tão complementares uns aos outros que ao se expor um, outros parecem visíveis pela dedução, ou mesmo pela intuição, e se seguem fluentemente. Há uma idéia, porém, que consegue revelar as outras com maior grandeza, parece refletir a própria essência de nossa formação intelectual, esta idéia é a que fazemos de Deus. Um velho halterofilista barbado ou o sol que traz a colheita. A Verdade ou uma mentira. Não é o caso de que todas as idéias se desprendam dessa, mas o fato é que a partir dela a exposição de ideologias parece bem mais clara.

As linhas doutrinárias de um partido político estabelecem determinados parâmetros ideológicos, que se aplicam sobre diferentes áreas. Embora no Brasil os partidos se misturem numa única e invariável malha putrefata de imoralidade, ainda permeia o idealismo de que os partidos carregam bandeiras representativas de seus objetivos. É no que tangencia a ideologia pessoal com a partidária que os políticos definem sua direção, escolhem qual “bandeira” erguerão. É dito então que dentro dos partidos se supõe linhas ideológicas gerais a serem seguidas, interdependentes, que se organizam no estatuto assim como as idéias em nossa mente. Assim como nossa consciência estabelece limites éticos e morais para as nossas ações, o partido estabelece normas e objetivos gerais, explícitos ou implícitos, a serem obedecidos por seus membros.

O deputado federal Luiz Bassuma (PT/BA), presidente da Frente Parlamentar Contra o Aborto, sofreu represálias do presidente do PT da Bahia, Marcelino Galo por defender idéias que seriam contrárias à posição do partido a respeito do tema aborto, mesmo que, como tenha respondido, Bassuma não tenha ferido nenhum ponto programático do PT. Vê-se no caso do deputado baiano que os partidos têm sim proposições morais determinadas e que invariavelmente se relacionam a um direcionamento da religiosidade, mesmo que se acredite ser esta inexistente na política atual. Assim como é a idéia que fazemos da divindade a que melhor reflete nossas opiniões sobre outros assuntos diversos, assim também podemos perceber qual a visão que determinados partidos revelam de Deus. No livro-debate “No que crêem os que não crêem”, o progressista cardeal Carlo Maria Martini questiona a seu interlocutor, Umberto Eco, de onde proviria a moral daqueles que não acreditam em Deus, posto que não via como poderia esta existir sem Ele. Eco prontamente respondeu explicando que a moral não depende da crença em Deus. O cardeal Martini estava errado (não pela primeira e nem pela última vez). A moral pode não prescindir da crença em Deus, mas está intrinsecamente relacionada à divindade e, portanto, a religiosidade do indivíduo. Do materialismo supõe-se o ateísmo, visto que tem como valor apenas o que é sensível; neste sentido se expõe a confusão gerada pelo deputado baiano, pois mesmo que o PT tenha, aos olhos da mídia, tentado se “endireitar” continua a ser um partido formado nas bases do comunismo.

Quando sob a alegação da existência do Estado laico justificar o desmerecimento das propostas da Igreja, tenta-se instituir ações de uma moral mais liberal, não é uma exposição de indiferentismo religioso, mas sim uma proclamação descarada da fé do governo. A legalização do aborto com o pretexto de que ninguém além da mulher poderia legislar sobre o “seu” corpo, não se trata de uma mera determinação de uma liberdade pessoal, é antes disso uma negação estatal da existência de uma verdade que transpasse os limites do individualismo e do subjetivismo. Fé abrange todo um depósito de confiança quanto a uma pessoa é possível fazer, ela assim como a moral prescinde da crença na existência de Deus. O ateísmo é também um credo. É necessário não acreditar na existência da divindade para expandir os limites da “moral”, para acreditar na inconseqüência de nossas ações, ou ao menos, nas conseqüências apenas temporais.

O Estado laico inexiste. Mesmo que não dependa de uma religião organizada, é impossível a um Estado ser irreligioso. As determinações governamentais frutos da moral estatal, são como uma cortina aberta para a exposição do papel que Deus desempenha na sociedade. Não há para onde correr. Além de nossas próprias consciências, somos forçados na tentativa de assimilação da consciência partidária a conviver com as novas regras da moral social. Fazer uma crítica histórica da participação da Igreja Católica nas decisões estatais, em defesa de um Estado laico é senão estúpido, no mínimo inócuo. A religiosidade estará sempre presente enquanto seres humanos regerem as nações. Trata-se apenas de uma questão de saber a quem relegar a autoridade religiosa.


Por
Gustavo V. de Andrade